FAQ


Os temas que leitores mais criticam neste blog são os que se referem a políticas educacionais. Este é um dado bastante curioso. Afinal, já defendi aqui várias ideias matemáticas radicalmente contrárias às práticas usuais e jamais percebi qualquer objeção. Este fenômeno me causa estranheza, uma vez que a defesa de políticas educacionais fica bastante prejudicada sem um considerável conhecimento sobre conteúdos abordados em sala de aula. Aparentemente existe uma crença entre profissionais da educação de que políticas educacionais podem ser definidas a partir de algum tipo de senso comum, sem uma reflexão crítica. Esta é uma crença irresponsável.

Além disso, frequentemente aparecem leitores novos neste blog que não leem sobre os temas aqui tratados de forma muito metódica ou sequer cuidadosa. Uma das consequências disso é que, de tempos em tempos, sou obrigado a responder às mesmas críticas e questões. 

Para evitar que eu consuma mais tempo respondendo a discursos repetitivos e impensados, faço aqui uma lista de críticas frequentes de leitores, acompanhadas de respectivas respostas. Aos poucos atualizarei esta lista. 

1) A estabilidade de emprego entre professores de universidades públicas é necessária para evitar perseguições pessoais ou políticas.

De fato a estabilidade de emprego garante uma segurança para o professor trabalhar livremente, sem o receio de se tornar uma vítima de decisões arbitrárias de chefias ou governos. No entanto, ela não pode ser concedida a qualquer professor. Estabilidade de emprego deveria ser tratada como um privilégio e não como um direito. E, como tal, deve ser conquistada. A partir do momento em que estabilidade é garantida de forma indiscriminada, cria-se um ambiente de acomodação. E isso é inadmissível em uma instituição de ensino superior. Uma discussão fascinante (promovida por Steven Krantz) sobre estabilidade acadêmica se encontra aqui.

2) Publicação em periódicos especializados e de circulação internacional não é o único critério de avaliação de desempenho de um professor universitário.

Além de pesquisa, professores universitários realizam atividades de docência, extensão e eventualmente administração. No entanto, a reputação internacional de qualquer universidade depende principalmente de produção científica e tecnológica. Além disso, sem pesquisa, a qualidade de atividades de docência, extensão e administração fica gravemente prejudicada. Aulas passam a ser meras repetições de conteúdos de livros, atividades de extensão não apresentam novidades importantes e decisões administrativas são tomadas sem sustentação acadêmica. Se um professor não se sente à vontade para realizar pesquisas, que procure emprego em uma instituição que não exija isso. Existem excelentes escolas técnicas cujas missões não priorizam pesquisa. 

3) A atividade científica no Brasil é ainda muito recente e, portanto, é muito difícil nosso país se destacar no cenário internacional.

Esta é uma visão ingênua. O cultivo de ciência não é análogo à fermentação de pão. Não basta combinar ingredientes e esperar que o tempo faça o resto. Sem um sistema de avaliação séria do desempenho de professores e pesquisadores e sem metas bem estabelecidas de desenvolvimento e inovação (alicerçadas por uma estratégia clara), não há como desenvolver tradição científica em uma nação do porte do Brasil. Professores e pesquisadores de nosso país precisam entender que eles também devem ser avaliados. E, quem não tiver um desempenho satisfatório neste processo de avaliação periódica, deve ser simplesmente demitido. Um dos exemplos históricos mais impressionantes (que ilustra a irrelevância do fator tempo) é o desenvolvimento da matemática na Polônia, na primeira metade do século passado. Para detalhes clique aqui.

4) Existem muitas mentes brilhantes no Brasil, apesar das afirmações e insinuações do autor deste blog.

Sem dúvida. E isso eu já deixei claro em diversas postagens. Tanto é verdade que existe neste site uma página (em constante construção) dedicada aos grandes cientistas brasileiros. No entanto, falta articulação política entre essas mentes brilhantes. E uma das consequências desta realidade é o ambiente de mediocridade que domina instituições de ensino em todos os níveis.

5) O professor Adonai Sant'Anna só está frustrado e, por isso, ele escreve este blog.

Certamente estou frustrado. A gota d'água aconteceu quando assumi a chefia do Departamento de Matemática da UFPR. O departamento onde estou lotado tem seus problemas, sem dúvida. Mas é um pequeno paraíso se compararmos com o restante da UFPR e, principalmente, com o resto do país. Durante minha chefia interagi com diferentes unidades da UFPR e confirmei de forma dramática as diretrizes mesquinhas do ensino superior público brasileiro. Fui convidado, em seguida, para concorrer ao cargo de Diretor de Setor, mas simplesmente declinei. Como já disse um colega meu, a única motivação que uma pessoa poderia ter para ser reitor da UFPR é a satisfação de dizer para a sua mãe: "Mãe, sou reitor da UFPR." O sistema de ensino superior público neste país tem que ser confrontado de fora para dentro. Isso porque o sistema é engessado de tal forma que qualquer mudança significativa a partir do próprio sistema se torna simplesmente inviável. Este blog faz parte da estratégia de pressão que sigo. Mas simultaneamente estou envolvido em outros projetos (produções cinematográficas e televisivas) que demandam muito tempo para serem concretizados. Espero que meus planos se tornem uma realidade, mesmo que consumam décadas.

6) O professor Adonai Sant'Anna não atualiza seu currículo Lattes e, portanto, não deixa claro qual é a sua produção acadêmica nos últimos anos. 

Em 2009 solicitei meu desligamento do programa de pós-graduação em matemática da UFPR, abri mão de minha sala na UFPR, doei a maioria de meus livros e periódicos (alguns foram doados para leitores deste blog), encerrei definitivamente minhas atividades de orientação de iniciação científica e de pós-graduação, pedi meu desligamento de Mathematical Reviews e Zentralblatt für Mathematik e me afastei do corpo editorial de periódicos. Apesar disso, continuarei publicando em periódicos especializados enquanto estiver lecionando na UFPR. Mas decidi que somente publicarei resultados que eu considerar genuinamente relevantes. Não vou mais me escravizar à visão quantitativa de produção acadêmica que impera no Brasil. Meu resultado mais recente de pesquisa (publicado em 2014 em um excelente veículo) foi, inclusive, anunciado neste blog. Como não tenho mais interesse em receber benefício algum da UFPR ou de órgãos de fomento à pesquisa, não preciso atualizar meu currículo Lattes. Abri mão até mesmo da progressão funcional. Há anos tenho todos os requisitos para subir de Associado II para Associado III, mas não o fiz e não o farei. 

2 comentários:

  1. Ediclerton Rabelo4 de maio de 2015 17:12

    Professor Adonai meu nome é Ediclerton.Gostaria que o senhor falasse em seu blog sobre os conectivos da lógica classica principalmente os conectivos,SE ...... ENTÃO....
    e ......SE E SOMENTE SE.....
    Pois tenho muitas dúvidas sobre conectivos principalmente sobre os dois que menciono.
    Por último gostaria que o senhor me indicasse um livro para mim estudar o assunto desde o principio.Obrigado

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    1. Ediclerton

      Sua sugestão é ótima. Mas penso em abordar esses temas mais básicos em minha série de vídeos educativos que disponibilizarei até agosto em um canal Vimeo.

      https://vimeo.com/adonaisantanna

      Em meu livro O que é um Axioma, há uma discussão que julgo acessível, sobre o tema. Mas creio que esteja fora de catálogo. Outra opção, muito didática, é Introduction to Mathematical Logic, de E. Mendelson.

      Peço um pouco de paciência, até eu conseguir finalizar os primeiros vídeos. A produção deles é realmente trabalhosa e tem consumido cerca de seis horas por dia, de domingo a domingo.

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