terça-feira, 7 de julho de 2015

O que e quem você ama?


Recentemente um comentarista anônimo deste blog disse que sente raiva de certas postagens aqui publicadas. Isso porque ele observa que vários dos graves problemas das universidades de nosso país são percebidos por muita gente, mas nada é feito para mudar. 

Além deste blog, mantenho uma página Facebook sempre atualizada com notícias relacionadas a temas aqui abordados. E também estou finalizando a produção de vídeos educativos que, em breve, serão disponibilizados em um canal Vimeo. Mas iniciativas como essas, no sentido de promover difusão e discussão sobre ciência e educação, não são novidade alguma. Há milhares delas no mundo todo. Além disso, mídias menos especializadas e muito populares também reservam considerável espaço para temas da ciência e educação. O lado positivo disso tudo é óbvio: o acesso a informações e análises críticas sobre assuntos da mais alta importância. No entanto, existe um lado negativo muito preocupante: a falta de foco. 

As trezentas postagens que antecedem esta tratam de múltiplos temas. No entanto, nenhum deles foi tratado de maneira exaustiva aqui. Certamente não sugiro que algum assunto aqui discutido possa ser compreendido em sua plenitude. Mas a busca pela plenitude é essencial, se alguém honestamente deseja mudanças. 

Navegar na internet atrás de informações atualizadas sobre o que há de mais relevante em ciência, educação e filosofia nos dias de hoje pode ser mais informativo do que navegar em busca de vídeos engraçados sobre gatos que soltam flatulências enquanto soluçam. Mas nenhuma das atividades constrói coisa alguma. 

Navegar persistentemente na internet é apenas um ato de eterna paquera, sem a efetiva busca por real compromisso. 

Um exemplo muito marcante para ilustrar o que digo é a vida de Stephen Hawking, o famoso físico britânico que nasceu exatamente trezentos anos após a morte de Galileu. Antes do diagnóstico de sua doença (esclerose lateral amiotrófica), Hawking era considerado um jovem brilhante que não se destacava nos estudos. Depois que médicos o avaliaram e disseram que ele não poderia viver por mais de dois anos e meio, Hawking e sua família ficaram arrasados. 

Isso obrigou o jovem britânico a refletir sobre a sua vida. Ele dividiu quarto com uma vítima de leucemia e percebeu que sua situação não era tão desoladora, por comparação. E até mesmo seu inconsciente deu um onírico grito de alerta. Hawking sonhou que seria executado. No entanto, havia mais um fator em jogo. O jovem condenado estava apaixonado por Jane Wilde. 

Hawking adorava atividades físicas, incluindo dança. E, vindo de uma família com considerável tradição acadêmica, ele nutria interesse por múltiplos ramos do conhecimento. Mas o amor pela vida e por Jane Wilde o fizeram se concentrar em física teórica. Hawking estava finalmente amando a física teórica e não apenas flertando. 

Sem a incessante busca pela plena compreensão, não há amor. E, sem amor, não há compreensão alguma.

Notei na biografia de Hawking algumas semelhanças com a vida de um conhecido cientista brasileiro. E uma delas, em especial, despertou muita atenção. Durante jantares da família Hawking não havia diálogo algum. Cada membro da família se alimentava enquanto lia um livro. Em conversas pessoais com Newton da Costa, certa vez ele revelou: "Durante o jantar, em minha família, jamais conversávamos sobre assuntos pessoais, mas somente sobre temas de caráter geral, como música, ciência, história, filosofia, artes."

Os poucos que tiveram o privilégio de assistir ao documentário Espírito de Contradição, de Fernando Severo, devem ter percebido que da Costa não se sente muito a vontade para falar a respeito de si mesmo. No entanto, exala uma paixão incontrolável quando discursa sobre matemática, física e filosofia. Isso porque seu amor e sua paixão sempre apontaram para a tênue fronteira entre essas áreas do conhecimento. da Costa conversa fluentemente sobre música, literatura, cinema, religião, linguística, computação, economia, história, direito, ética e até mesmo psicanálise. Mas essas áreas são meras paqueras para ele, apesar de poder trocar ideias relevantes até mesmo com especialistas. No entanto, seu incorruptível amor pela interface entre matemática, física e filosofia culminou com um livro que ainda deverá ser melhor compreendido pelas gerações futuras. Isso é amor. Isso é compromisso consequente de amor. da Costa é um servidor da matemática, da física e, principalmente, da filosofia. Quem ama, serve. E quem serve, faz, constrói, edifica novos mundos. 

Portanto, se alguém deseja mudar algo para melhor, que ame. Chega de paquera. Chega de flertes. Nada muda se apenas criticarmos aqueles que sequer flertam o conhecimento, a cultura, a beleza. São aqueles que sabem flertar que devem decidir se amam algo, se são capazes de amar algo.

O flerte é apenas uma porta entreaberta. Mas você quer entrar para ver o que realmente há lá dentro?

31 comentários:

  1. Fantástico. Foi um baque para mim, estava pensando exatamente sobre isso, minutos antes de ver esta postagem.

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    1. Pois é. E há quem subestime coincidências.

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  2. Das muitas postagens que leio neste blog há alguns anos, essa talvez tenha sido a melhor. Uma declaração de princípios

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    1. Grato pelo apoio. Mas pode ter certeza de que esta será uma das postagens menos visualizadas. Não tem denúncia.

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    2. Sério? Quer dizer que se não tiver denúncia cai o interesse? Triste isso...

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  3. E aqueles que se frustraram, mesmo com as expectativas baixas, pelo(s) amor(es) de suas vidas? Aqueles que foram mais a fundo, além do flerte, e encontraram – silêncio e o nada, ou muito pouco? Esperança, desespero?

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    1. Eduardo

      Esta sim é uma questão perturbadora e muito difícil de responder de forma satisfatória, pois ela depende de aspectos profundos e muito pessoais sobre o caráter de cada um. Comumente existe a visão de "amor não correspondido". Mas não consigo confiar em senso comum e discursos repetidos sem reflexão séria. Eu, por exemplo, poderia alegar algo como um amor não correspondido pela matemática. Segui caminhos que não me levaram ainda àquilo que eu sempre quis. Mas nem por isso guardo qualquer rancor ou sequer tristeza. Continuo amando a matemática. Mas decidi abordá-la de outras maneiras. Nessas horas é necessário ser estratégico, tentando confrontar o objeto amado com nossa própria capacidade e modos de amar.

      Existe uma poderosa correlação entre amor por uma área de estudos e amor pessoal. Assim como amor pessoal pode ser dissolvido por corrosiva influência da rotina, o mesmo opera com o amor ao conhecimento. Seja partindo de uma relação bem sucedida ou de uma relação conflitante, a rotina de agir e perceber sempre da mesma forma é algo que contamina de maneira negativa.

      Espero ter ajudado.

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    2. "Assim como amor pessoal pode ser dissolvido por corrosiva influência da rotina, o mesmo opera com o amor ao conhecimento." A rotina piora quando caminho “entre o silêncio e o nada, ou muito pouco”, quando uma fagulha de esperança dura momentos furtivos, logo sendo apagada por uma enxurrada de água podre e lamacenta. Há momentos em que é melhor escolher não ficar louco, não deixar se levar por amores impossíveis, e ver a vida acadêmica de maneira estritamente utilitária, embora seja agonizante, difícil e doloroso. Aprendi a detestar o que ensino, e estou aprendendo a desprezar o conhecimento em geral. “Living on borrowed time”, como dizem os americanos. A cada dia vejo que o que antes era dedicação e esperança em relação ao ensino e pesquisa hoje é cada vez mais ódio, rancor e desprezo por algo que perdeu o sentido.

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    3. Anônimo

      O mundo em geral é um lodaçal. Basta ver quais são as postagens mais visualizadas e comentadas neste blog. São aquelas de denúncias, de críticas. Os textos informativos, ou aqueles com sugestões de projetos de pesquisa, são os que menos despertam atenção. Mas mesmo em meio ao lodaçal brotam, vez ou outra, algo como flores. Essas flores são pessoas muito raras. Mas elas existem.

      Conhecimento é um bem para pouquíssimos. Se você um dia amou este conhecimento, não faz sentido hoje desprezá-lo. Não podemos confundir conhecimento com vida acadêmica. A vida acadêmica de hoje está corrompida, não apenas no Brasil, mas em praticamente todo o mundo. Por conta disso, são fundamentais dois pontos: 1) Identificar e reconhecer suas próprias limitações relativamente ao conhecimento (no meu caso, foi o que fiz) e 2) Identificar e reconhecer pessoas com as quais se compartilhe a mesma visão fundamental sobre conhecimento (novamente no meu caso, foi o que fiz).

      A vida é exageradamente curta para ser alimentada com ódio, rancor e desprezo. Uma coisa que faço, de tempos em tempos, quando sinto o lodaçal tomando conta, é assistir a um filme de Stanley Kubrick. É um dos remédios que tomo. Os filmes da fase americana deste diretor são a prova de que a perfeição pode existir neste mundo. O que recomendo, se me permitir, é encontrar sua própria válvula de escape. Caso contrário, a loucura é realmente o caminho natural. E arte, acredito, é uma das melhores válvulas de escape. Mas a melhor mesma ainda é amor. Digo isso por conta de experiência pessoal, só isso.

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    4. “O que nos diferencia dos outros animais é muito pouco, mas poucos gozam deste pouco.” Confúcio (~500 a.C.)

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  4. Prof Adonai

    A melhor de todas as postagens, sem dúvida

    Afinal não há nada mais importante do que o amor!

    O professor que ama o que faz, estuda e se dedica, não para ter um título ou para aparecer em algum lugar, mas para que seus alunos aprendam.

    Quem ama não julga, considerando esse ou aquele melhor ou pior. Não é humanofóbico

    Quem ama consegue ter opiniões e posições políticas, sem contudo, agredir quem tem opinião contrária (como já vi um cidadão fazer isso nesse blog). Afinal ninguém é melhor que ninguém, somos apenas diferentes, nada mais.

    Quem ama consegue sofrer, mesmo que a Matemática, ou qualquer outra paixão, não corresponda aparentemente.

    Quem ama ensina, mesmo sabendo que muitas vezes plantará muito e colherá pouco. Porém as sementes foram lançadas e certamente encontrarão alguma terra boa.

    Essa postagem veio em um bom momento pra mim também. Me fez refletir o quanto fazemos as coisas por motivações fúteis e esquecemos o essencial, que é realmente, o amor.

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    1. Hugo

      Pudera mais gente pensasse como você. Grato pelo suporte.

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  5. Um texto feito com muito amor! De fato esse é o motor da enorme quantidade de textos profundos que tu produzes para nosso deleite!
    Tu sabes se o filme sobre o professor Newton será disponibilizado na internet?

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    1. Oi, Mariia

      Segundo Severo, será disponibilizado sim na internet. Mas não se sabe quando. Assim que eu tiver notícias, certamente farei ampla divulgação. Muita gente tem perguntado.

      E agradeço pelo importante apoio.

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  6. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, pois a história tem mostrado que algumas formas de amor são bem nocivas...

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    1. Nem tudo o que tem o nome de "amor" é de fato amor. Entender isto faz toda a diferença.

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  7. Agora lembrei, já que foi falado em Hawking, de outro gigante da ciência, Feynman. Na Wikipedia anglófona [1] sobre a vida pessoal dele, diz o seguinte:

    "While researching for his Ph.D., Feynman married his first wife, Arline Greenbaum (often misspelled 'Arlene'). They married knowing that Arline was seriously ill from tuberculosis, of which she died in 1945. In 1946, Feynman wrote a letter to her, but kept it sealed for the rest of his life. This portion of Feynman's life was portrayed in the 1996 film Infinity, which featured Feynman's daughter, Michelle, in a cameo role.
    He married a second time in June 1952, to Mary Louise Bell of Neodesha, Kansas; this marriage was unsuccessful:
    He begins working calculus problems in his head as soon as he awakens. He did calculus while driving in his car, while sitting in the living room, and while lying in bed at night.
    —Mary Louise Bell divorce complaint


    [1] en.wikipedia.org/wiki/Richard_Feynman#Personal_life [09/07/2015]

    Isso é que é paixão pela Física e pela Matemática!

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    1. De fato, Eduardo

      Vi este filme, Infinity, anos atrás. Grato pela referência.

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  8. apenas para divulgar: http://ppavesi.blogspot.de/2015/07/corrupcao-no-judiciario-nao-tem-nada.html

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    1. Anônimo

      Eu já conhecia este excelente blog. Mas não conhecia a postagem indicada. Excelente! Divulgarei.

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  9. Caro professor

    Li e reli o texto algumas vezes, confesso que foi uma das postagens que mais me causou contradição (no melhor sentido da palavra), pois faz-se difícil a distinção entre o flerte pelo conhecimento e o amor a ele, entre o espanto ao conhecer os trabalhos dos grandes e a inveja por suas obras.
    Quando o esforço se torna insuficiente e sente-se muito distante de se alcançar aqueles que tanto admiramos, talvez realmente só reste o amor, já que o que entendemos por razão mostra-se contrário á nossa fortuna.

    "Busque Amor novas artes, novo engenho,
    para matar me, e novas esquivanças;
    que não pode tirar me as esperanças,
    que mal me tirará o que eu não tenho.

    Olhai de que esperanças me mantenho!
    Vede que perigosas seguranças!
    Que não temo contrastes nem mudanças,
    andando em bravo mar, perdido o lenho.

    Mas, conquanto não pode haver desgosto
    onde esperança falta, lá me esconde
    Amor um mal, que mata e não se vê.

    Que dias há que n'alma me tem posto
    um não sei quê, que nasce não sei onde,
    vem não sei como, e dói não sei porquê."

    -Luís de Camões

    Obrigado pelo texto.

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    1. Pois é, Lucas. Seu comentário fez-me lembrar de outra referência literária: O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. Esse tipo de compreensão é Somente Para Os Loucos de Hesse. O mundo dos normais não abre espaço para aquilo que realmente interessa. Logo, noções como amor, beleza e verdade caem no cliché, no senso comum. Agradeço pelo apoio.

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    2. Adonai, eu sei que não és, mas às vezes aparentas ser extremamente inocente, pois bem sabes que na média o mundo é dos "normais" e esse é um "problema" insolúvel...

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  10. Henrique Trindade17 de julho de 2015 11:34

    Um dos textos mais lúcidos e informativos que já li, e faz um bom tempo, salvei em meu PC para, felizmente, lembrar que ñ sou o único que tenta buscar empatia nesse mundo insano apesar de ser extremamente difícil com uma cultura que privilegia medo, violência, ódio, falsidade e, principalmente, inautenticidade... Apesar de

    E, apesar de tudo isso, guardarei essa dele para toda a vida enquanto houver esperança: "Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor... Lembre-se. Se escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele você conquistará o mundo." - Albert Einstein

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    1. Henrique

      Sem a influência de uma extraordinária mulher, este texto jamais teria sido escrito. Às vezes precisamos tomar umas pancadas na cara para acordar.

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  11. Professor Adonai, ainda não consegui entender a imagem que ilustra esta postagem... qual seu significado?

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    1. O significado está no último parágrafo da postagem. Além disso, há também um significado pessoal dirigido a uma pessoa específica.

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    2. De fato esta imagem é espelha completamente a ideia e remete a aceitar o desafio.

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    1. Nicolas

      Qual é o assunto que naturalmente lhe desperta atenção, a ponto de fazer com que você realmente queira desvendar, conhecer, sentir? Música? Física? Política? A vida íntima de celebridades? A mente humana? Matemática? Direito? História? Rochas? Sexualidade? Plantas? Economia? Literatura? Arquitetura? Deus? Jogos? Cinema? Animais domésticos? Televisão? Computação? Educação? Tabloides sensacionalistas? Distribuição de água nas grandes cidades?

      Observe que não estou falando de simples entretenimento. Uma pessoa pode se concentrar em um jogo de computador, sem necessariamente ter inclinação para criar ou desenvolver jogos eletrônicos. Estou falando daquilo que o intriga a ponto de querer saber cada vez mais a respeito.

      Uma das coisas que mais atrapalha na descoberta pessoal sobre vocação é a preocupação sobre aquilo que outros pensarão a respeito. A maioria das pessoas trabalha com aquilo que não gosta. Por conta disso, elas ficam incomodadas com as pessoas que preferem seguir as suas paixões. E, quando ficam incomodadas, elas julgam, criticam, falam mal.

      Essa prática é sistemática na própria escola. Pessoas são obrigadas a frequentar escola, são obrigadas a irem bem na escola. Ou seja, desde cedo somos convencidos a aceitar o fato de que devemos fazer aquilo que o mundo nos obriga a fazer, quer gostemos ou não.

      De fato somos obrigados a fazer muitas coisas que não apreciamos. Um exemplo óbvio é o pagamento de impostos. Todos somos obrigados a pagar impostos, apesar de não gostarmos disso. Não vejo escolha, a não ser que você se torne um eremita. Mas carreiras ainda podem ser escolhidas.

      Se você gosta de fofocas, batalhe para se tornar um jornalista de tabloide. Se você gosta de aviação, batalhe para se tornar engenheiro mecânico. Se você gosta de música, avalie o mercado e veja as opções que podem ser seguidas. Se você for cristão convicto, estude grego arcaico para ler o Novo Testamento. Aquele que faz o que ama se destaca sobre os demais.

      Em suma, você precisa refletir com seriedade e honestidade sobre aquilo que verdadeiramente o atrai. Seja o que for, possivelmente é algo que tem a ver com práticas suas desde a sua infância. Crianças naturalmente revelam seus interesses futuros para a vida adulta.

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