sábado, 27 de dezembro de 2014

Conquistando respeito acadêmico sem esforço


Digamos que você seja intelectualmente vaidoso, ou seja, uma pessoa que moralmente se alimenta de elogios sobre a sua inteligência. Mas, digamos também que você seja intelectualmente preguiçoso, isto é, uma pessoa sem muita disposição para trabalhar duro e realizar conquistas intelectuais reais e significativas. Diante deste quadro, como conquistar respeito e até admiração de seus pares profissionais, caso você decida seguir uma carreira acadêmica no Brasil? 

Para responder a esta questão encaminho a seguir uma lista de oito sugestões básicas para resolver este aparente paradoxo. É claro que essas recomendações jamais funcionarão para a conquista de respeito e admiração por parte dos genuínos pensadores, aqueles que efetivamente produzem conhecimento relevante e dominam uma visão crítica sobre ciência. Mas a lista de sugestões dadas abaixo funciona para a conquista de respeito e admiração entre os seus semelhantes, principalmente se você souber escolher com bastante cuidado a sua área de atuação profissional. Portanto, aí vai.

Sugestão 1: Publique o máximo que puder em anais de congressos. Na maioria dos casos, o processo de seleção de artigos ou resumos para fins de publicação em anais de congressos científicos é pouco rigoroso. Isso porque resumos pouco dizem. E mesmo aqueles textos um pouco mais extensos que, do ponto de vista editorial, se qualificam como artigos, podem ser recheados de ideias jamais testadas, mas que parecem sensatas à primeira vista. Neste último caso temos textos usualmente qualificados como artigos completos, sem de fato o serem. Como ninguém mesmo terá qualquer interesse em ler esses artigos e resumos, simplesmente por não serem informativos, você estará intelectualmente seguro. A Plataforma Lattes está repleta de casos assim. 

Sugestão 2: Organize ou edite livros. Convide colegas ou amigos para contribuírem com artigos a serem publicados em seu livro. Mas nem pense em publicar através de alguma editora de alcance internacional, a não ser que seja uma daquelas que cobram elevadas taxas dos autores e veiculam absolutamente qualquer coisa em troca de dinheiro. Se não quer ou não pode investir com subornos, procure organizar ou editar seus livros através de editoras de universidades federais, estaduais ou privadas de nosso país. E não se esqueça da importância do título de seu livro. Deve ser algo que dê destaque à sua inteligência, como "A Filosofia do Nada" ou "Desamando os Desarmados". Desta forma seus colegas perceberão que, além de inteligente, você é também espirituoso. Como ninguém lerá estes livros, novamente você estará seguro contra críticas sérias ao seu trabalho. A Plataforma Lattes está repleta de casos assim. 

Sugestão 3: Faça muitos amigos, participando de congressos nacionais e regionais. Se participar de algum congresso internacional realizado no Brasil, jamais fale em outro idioma que não seja o Português. Se assistir a alguma palestra proferida por um renomado cientista, não esqueça de comentar com os seus amigos: "É. Ele é muito bom, mas adora fazer propaganda de si mesmo.", "Não gostei da palestra. O conferencista dá mais destaque a pesquisas atuais do que a conteúdos realmente relevantes.". Ou seja, jamais elogie sem fazer ressalvas. E jamais discuta o mérito do tema da conferência. Faça afirmações vagas, mas impactantes. Sempre dê preferência a comentários de ordem pessoal. E não esqueça de falar com uma postura altiva. Muitos perceberão o quão antenado você está com a vida acadêmica. 

Sugestão 4: Oriente a maior quantia possível de monografias de especialização, dissertações de mestrado e teses de doutorado, convidando para membros de suas bancas somente aqueles que o respeitam e/ou admiram. Aqueles que o admiram são pessoas que certamente não gostam de criar polêmica. Eles aprovarão qualquer coisa que você aprove. Para mostrar aos seus orientados como você é brilhante, mas tolerante, sempre aprove as defesas de especialização, mestrado ou doutorado com a seguinte ressalva: "O candidato está aprovado com a condição de que faça as alterações sugeridas pela banca." Como ninguém lê monografias, dissertações ou teses e como ninguém confere se o candidato fez de fato quaisquer alterações após a defesa, você estará intelectualmente seguro. Ah, sim. Não se esqueça de obrigar seus orientados a aceitarem a inserção de seu nome em todos os artigos que escreverem e publicarem. A Plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 5: Se você deseja publicar em algum periódico especializado, para fazer volume em seu Currículo Lattes, basta submeter artigos para publicação em revistas editadas e distribuídas por universidades brasileiras. Na maioria dos casos essas revistas aceitam artigos escritos em Português. Além disso, elas não são procuradas por pesquisadores de ponta dos grandes centros de pesquisa espalhados pelo mundo. Eles sequer sabem da existência dessas revistas! Portanto, não há muita competitividade. Isso significa que você não precisa se empenhar de fato no artigo. Não se preocupe com conteúdo ou relevância. O que você escrever ficará apenas entre você e o editor. Talvez um ou dois "especialistas" leiam alguns trechos do que escrever. Nada além disso. A Plataforma Lattes está repleta da casos assim. 

Sugestão 6: Assuma cargos de chefia. Chefes, Diretores, Reitores e Pró-Reitores podem facilmente vender a imagem de tomadores de decisões, aqueles que definem quem recebe verbas e benefícios e quem fica de fora. Reclame da mentalidade política nas universidades, mas sempre seja político. Reclame de governos, mas sempre aceite quaisquer benefícios que possam vir deles. Reclame dos pesquisadores que não se envolvem com questões políticas, alegando que eles têm visão estreita de mundo. Reclame dos professores que se envolvem com questões políticas, alegando que eles se distanciam do ensino e da pesquisa. Mas, mais importante do que tudo, convoque reuniões, muitas reuniões. Reuniões conferem visibilidade. Todos estarão olhando para você. E não se incomode com aqueles que não gostam de você. Invista apenas naqueles que são beneficiados por suas decisões. Estes darão o apoio moral necessário para inflar o seu ego, mesmo diante de críticas alheias. 

Sugestão 7: Somente participe de eventos acadêmicos que emitam certificados, não importando quais sejam. Quanto maior a quantia de certificados, maior o volume de seu Curriculum Vitae. Apresente palestras em sua instituição e exija certificado assinado pelo seu chefe imediato. Obrigue seus alunos a participarem de atividades extra-curriculares e exija de seu chefe imediato um certificado de coordenador de evento de extensão universitária. Se algum colega seu estiver organizando um colóquio ou congresso, peça para trabalhar como mestre de cerimônias e exija um certificado. E cada certificado deve ser declarado em seu Currículo Lattes. 

Sugestão 8: Sempre fale sobre as suas conquistas. Mas faça isso de maneira sutil, comentando casualmente em algum contexto que nada tem a ver com as suas atividades profissionais. Se souber falar, pode facilmente passar a sensação de que a vida acadêmica é parte fundamental de seu ser. Por exemplo, se alguém está falando sobre viagens, diga o seguinte: "Pois é. Anos atrás, participei de um congresso de engenharia de produção em Itatiaia, no Rio de Janeiro. E, cara, como aquele parque nacional é lindo. A janela de meu quarto dava direto para aquela mata atlântica maravilhosa. Você sabia que tem esquilos em Itatiaia?"

Enfim, se você se mantiver ocupado, jamais precisará trabalhar de fato. Após a sua morte, ninguém mais se lembrará de sua remota existência. Mas, em vida, você ainda poderá desfrutar da sensação de que era um profissional socialmente necessário e academicamente engajado. 
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Observação: Acompanhe aqui a repercussão desta postagem em blog da Folha de São Paulo.

63 comentários:

  1. Perfeito! Penso que compreendi o cinismo. Concordo plenamente, ou melhor, com uma ou outra ressalva.
    É triste como este paradigma de ciência se hegemoniza.
    Penso que a compreensão da teoria do terceiro incluído de Basarab Nicolescu ajuda àqueles que conseguem ver no que se transformou a ciência. Hoje eu penso que ciência se faz fora dos meios institucionais e seus protocolos. Rubem Alves dizia que para estudar Deus ele não pesquisava mais os teólogos, mas sim os poetas. Não sei se são essas as palavras, mas é a ideia.

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  2. Eu já vi muitos casos desses, inclusive "pesquisadores" renomados com prêmios de mérito científico. Afinal, o que é mérito? Pode ser que haja algum mérito em publicar centenas de artigos que não servem pra nada. Einstein, Higgs e pesquisadores respeitados, não possuem centenas, mas mudaram a nossa relação com o mundo. Aliás, esses prêmios servem para distinguir cientistas de escritores. O último poderia escrever alguns guias:

    1) como alcançar o prêmio ACM Distinguished sem realizar todas as pesquisas científicas publicadas.

    2) Converta resumos em artigos completos e triplique a sua produtividade em pesquisa.

    3) A magia da combinação dos resultados. Como montar uma linha de produção de artigos a partir de um esquema com alunos, ex-alunos e escravos.

    4) Seja referência numa área sem escrever um artigo vendendo seu lattes para aprovar projetos de pesquisas.

    5) Como publicar em congressos rapidamente, utilizando idéias alheias e inserindo referências para simular um pesquisa.

    6) Como ganhar dos seus pares. Com toda essa dica do prof. Adonai, não se preocupe, o CNPQ sabe que é preciso haver escritores para divulgar a pesquisa brasileira, do jeito que só o brasileiro sabe fazer.

    Boa sorte para nós que não temos o mérito, mas temos respeito!

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  3. Prof. Adonai,

    Para fazer um pequeno contraponto em relação a algumas "sugestões" do seu texto, destaco que conheço um professor universitário que se enquadra nos quesitos: grande nº de publicações de artigos (muitos classificados pelo qualis como B2, B3) grande qtde. de publicação de livros e participação em seminários. Entretanto, considero suas produções muito relevantes, especialmente no âmbito da educação básica, é uma pessoa muito comprometida com o que faz e de uma humildade surpreendente. Certa vez contou que no processo seletivo para seu ingresso na universidade foi questionado porque tinha mais livros publicados do que artigos, já que estes "valem mais", respondeu a banca que o livro chega mais aos professores, daí sua opção. Me parece também que existe uma certa pressão da CAPES para publicação né? Imagino que isso contribui para publicações "duplicadas", diversos coautores em publicações, etc. Quanto à publicações internacionais (já li um post seu a respeito com posicionamento favorável), vc não acha que possui também um caráter mercadológico envolvido, isto é, tem revistas que para ler um artigo custa $20, $30 dólares... Eu estou iniciando na vida acadêmica e recentemente enviei um artigo para uma revista, a impressão que tive é que existe um trabalho sério de revisão, o texto voltou com uma série de correções, sugestões para melhora de determinados pontos do texto (obviamente não sou referência, como já disse estou iniciando minha trajetória acadêmica).

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    1. Cadu

      Seus questionamentos são extremamente pertinentes. É exatamente desse tipo de discussão que gosto. OK. Aqui vai.

      Não sei quem é o professor que você menciona e, consequentemente, não conheço a sua obra. Mas a impressão que me passa é que esse professor parece uma exceção à regra. Ou seja, as sugestões que apresento nesta postagem refletem condições necessárias para a mediocridade, mas não suficientes. É bem possível que este professor mencionado em seu comentário seja um profissional sério que, por motivos conhecidos somente por ele e uns poucos, preferiu não seguir com a internacionalização de seu trabalho. Ainda assim é uma falha. Isso porque a internacionalização não é um luxo, mas uma necessidade. Ciência e educação não podem ter fronteiras. Ou seja, este professor pode estar negando ao mundo contribuições importantes em educação. Sugiro que pergunte a este professor se ele se arrepende por não ter publicado em bons veículos de circulação internacional. Se ele se arrepender, então temos um exemplo de alguém realmente admirável. Eu, por exemplo, me arrependo por não ter participado de mais eventos internacionais. Minha resistência a viagens certamente prejudicou muito a minha carreira. É importante a pessoa identificar as suas falhas. E eu mesmo já cometi muitas falhas, bem graves.

      Com relação ao caráter mercadológico de periódicos internacionais, de fato existe este problema. E é um problema que tem sido muito debatido no mundo inteiro, resultando eventualmente no fechamento de ótimos periódicos. No entanto, ainda se faz necessário que o conhecimento relevante seja conhecido da forma mais ampla e irrestrita possível. E, no momento, somente bons periódicos viabilizam isso.

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  4. Complementando informação incompleta: enviei o artigo para uma revista brasileira, na área de educação, com acesso livre.

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    1. Cadu

      Fortemente recomendo que, em algum momento de sua carreira, submeta trabalho seu para publicação em periódico de circulação internacional e indexado. Garanto que será uma experiência muito edificante, ainda que o artigo não seja aceito. Mas insisto para que você insista, até o momento em que alguma pesquisa sua seja publicada. O planeta Terra não lê português, mas inglês.

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    2. "O planeta Terra não lê português, mas inglês."

      Foi por isso que escrevi meu TCC em engª da computação em inglês (demorou alguns meses, com inúmeras revisões e aprendizagens de regras gramaticais e expressões melhor colocadas). Quem quiser dar uma olhada: https://github.com/embatbr/tg

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    3. Excelente notícia, embat. Grato.

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  5. Excelente postagem. As ciências humanas, das quais faço parte enquanto estudante de mestrado em Educação, estão cheias de exemplos de profissionais de currículos altamente "respeitáveis". Recentemente participei de um processo seletivo de doutorado onde um capítulo de livro qualquer valia mais do que o dobro de um artigo publicado, não importando o qualis da revista. É realmente um círculo de camaradas, os congressos internacionais quando acontecem são tipo "congresso internacional luso-brasileiro de educação" (onde até haverá europeus ou africanos, mas que falam português), ou "congresso internacional ibero americano de educação" (onde haverá espanhóis e alguns pilantras da América latina e todo mundo fala portunhol). Mas não para por aí, no meu programa de pós-graduação há uma linha de pesquisa sobre políticas públicas que publica uns dez livros por ano, tudo com dinheiro público, os "cabeças" da linha se consideram, sem nenhum pudor, os melhores analistas de políticas públicas em educação, mesmo sem usar estatística ou qualquer outro método quantitativo mais ou menos sofisticado ou preditivo, o que é essencial para quem trabalha seriamente com esse tipo de análise. Obviamente eles são respeitados entre seus pares, e por serem analistas respeitáveis após as rodadas de publicação de inúmeros livros com títulos bastantes criativos, eles encaixotam um monte destes livros – que citam só trabalhos em português – e enviam para os departamentos correspondentes de Oxford, Cambrige e outras universidades de nome: a empáfia é maior do que seus currículos 'respeitáveis'. Eu realmente queria ver a cara de um professor sério de Oxford recebendo essa caixa recheada de "obras primas" todas em português: certamente a reação seria WTF. Estou preparando o artigo resultante da minha dissertação para publicação em uma revista de língua inglesa, pois como o Adonai diz "o planeta Terra não lê português, mas inglês" e considero moralmente obrigatório submeter meu trabalho a avaliação de outros pares. E independente de ser aceito ou não, considero que será um grande aprendizado.

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    1. Daniel

      Sua iniciativa é fenomenal! É o seguinte. Até eu conseguir publicar meu primeiro artigo em periódico realmente bom, levei muita surra. Mas é só apanhando mesmo que se aprende algo nesta vida. Sensacional que seu espírito seja maior do que o ambiente que o cerca. Como diz meu ex-orientador de iniciação científica, manda bala.

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  6. O professor Adonai Sant’Anna parece que ainda não percebeu que pertence a uma Universidade, instituição que é bem mais do que apenas um instituto de pesquisa ou apenas um instituto de docência. O professor universitário não deve fazer apenas pesquisas: pratica docência de graduação (para formação de profissionais em todas as áreas, assunto tão importante quanto a pesquisa); docência de pós-graduação (mestrado e doutorado com vistas à formação de pesquisadores em todas as áreas, tão importante quanto a pesquisa); gerencia a Universidade (cargos, comissões, pareceres que permitem viabilizar tanto a pesquisa como a docência, a saber: chefiar ou coordenar Faculdades, Departamentos, Centros, Programas; editar revistas científicas e de divulgação; emitir pareceres de artigos científicos, pareceres para concessão de bolsas a alunos de graduação, pós-graduação e professores, assim como de projetos de pesquisa e extensão, internos e externos à Universidade; participação em bancas de graduação, pós-graduação, seleção de professores, progressão funcional de docentes e funcionários; elaboração ou reelaboração de grades curriculares de graduação e pós-graduação; criação e participação em convênios de docência, pesquisa e extensão dentro e fora da Universidade, com entidades congêneres ou da sociedade civil, etc. etc.). O professor Sant’Anna não participa em nada disso? Não conhece as suas responsabilidades universitárias, para dedicar-se com tanta desenvoltura a desprezá-las?

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    1. Anônimo

      Comentário bizarro. OK. Vamos lá.

      1) Sobre minha familiaridade com pesquisa, docência, administração e extensão, recomendo que leia o link abaixo.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/p/sobre-o-autor-do-blog.html

      2) Sobre minhas atividades atuais, recomendo que leia o link abaixo.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/p/faq.html

      3) Sobre as funções de uma universidade, qual seria exatamente a diferença entre atribuições institucionais de Yale, Stanford e Princeton se compararmos com universidades federais, estaduais e privadas brasileiras? Nas universidades que se destacam mundialmente também não existem atividades de docência e administrativas, além de pesquisa e extensão?

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  7. A pesar de o Professor Sant’Anna ser matemático e pesquisar na área de lógica, falta-lhe raciocínio lógico no texto todo, a começar pelo título. Nenhum pesquisador universitário que se dedique a cultivar em sua carreira características como as descritas na caricatura que o professor chega a construir, seria, no âmbito universitário, respeitado academicamente. Ou seja, se algum pesquisador segue as sugestões elencadas, poderá fazê-lo provavelmente com pouco esforço, como diz o título, mas certamente não conquistará respeito acadêmico, ao contrário do que diz o título. Um pesquisador desse tipo, ou a sua caricatura, no entanto, talvez possa impressionar fora do ambiente universitário, como ocorreu com o jornalista Maurício Tuffani, da Folha de S. Paulo, que, a julgar pelos comentários, ficou deslumbrado com o texto, aprovando-o acriticamente.

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    1. Anônimo

      A questão não é propriamente de caráter lógico. O texto desta postagem é sustentado em fatos. Se desejar exemplos pontuais, recomendo a postagem abaixo.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2013/09/o-que-e-um-pesquisador-do-cnpq.html

      Pesquisadores do CNPq são indivíduos que conquistaram respeito nos círculos acadêmicos brasileiros. Mas será que todos eles merecem isso?

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    2. Apesar de ser uma caricatura, posso confirmar que essa situação de fato existe. E, ao contrário do que o Anônimo afirma, vários professores que se encaixam na caricatura são respeitadas no âmbito universitário. Não sei exatamente também o que faltaria de lógica à situação descrita pelo prof. Adonai. Existe uma lógica subjacente a todas as situações, uma estrutura que permite que isso exista, e que é decorrente da organização institucional da educação brasileira, das políticas educacionais do governo (um contexto local) e também da situação da academia como um todo no âmbito mundial. Os problemas brasileiros só são mais patéticos porque não há uma contrapartida no mar de mediocridade da produção nacional. Aqui há "ilhotas" de excelência, e não grandes centros de excelência, e muitas vezes valoriza-se exatamente a "cultura da mediocridade", como podemos constatar em vários depoimentos deste blog.

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    3. A situação ainda é pior: existem generais, coronéis e seus súditos no Brasil dentro das exatas, não sei em outras áreas. E existem os soldados que publicam incluindo o nome dos seus superiores. Vale também o ditado: eu te cito, tu me citas... Como também eu te convido, tu me convidas... Ou ainda o contrato do orientado do superior ou de um dos seus subordinados...

      Existem os que se submetem, pois os superiores tem o dinheiro para pagar as publicações, viagens etc. Esses também fazem parte do corpo editorial ou dos referees das revistas que publicam...

      Felizmente existem ainda os que são sérios...

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  8. Adonai,

    A raiz do mal tem um nome claro:

    "Funcionalismo público"

    Atenciosamente,

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    1. Anônimo

      Será mesmo? Sugiro a leitura da postagem abaixo sobre universidades privadas em nosso país. Minha impressão é que o problema é cultural mesmo, no Brasil enquanto nação.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2014/11/o-que-ha-de-errado-com-as-instituicoes.html

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  9. Você é mais um zero a esquerda com inveja dos pares.

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    1. Somente agora percebi que este comentário estava na pasta de spam. De qualquer modo, é uma avaliação inesperada.

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    2. Deveria ter continuado na caixa de spam :)

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  10. Prezado prof. Adonai,

    Concordo com muito daquilo que o sr. coloca em seu post, mas há um problema de fundo em sua avaliação sobre as revistas científicas brasileiras, editadas por universidades públicas: nas Humanidades, especialmente em alguns campos bem específicos como a História, não há grande interesse de revistas estrangeiras por pesquisas extremamente relevantes para a área no âmbito local, passando pelo questionamento de paradigmas e pela revisão historiográfica e o estabelecimento de uma cultura histórica crítica renovada. Penso que muito daquilo que o sr. coloca pode ser válido para seu campo de atuação, nas Exatas, mas considere também que há outras realidades na nossa academia...
    Atualmente sou a editora responsável por uma revista que em 2015 completará 20 anos de circulação e posso lhe garantir que TODOS os artigos submetidos passam por um criterioso processo de peer review. Como a revista tem suas edições on line e em acesso aberto, o sr. mesmo pode comprovar o número de acessos que ela teve nos últimos dez anos, desde quando todas suas edições passaram a ser disponibilizadas na web. Basta acessar o link http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/srh
    Antes que diga que é preciso publicar em periódicos internacionais, lhe esclareço que já o fiz em revistas do Canadá, do Uruguai e da França, em veículos reconhecidos como relevantes para o campo da História. Só penso que suas ideias sobre os periódicos científicos publicados no Brasil estão fortemente vinculadas à realidade de apenas parte de nossa academia...
    Abçs & parabéns pelo blog.

    Carla Mary S. Oliveira
    Professora Associada
    Departamento de História
    Programa de Pós-Graduação em História
    Universidade Federal da Paraíba

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    1. Professora Carla

      Antes de mais nada, preciso dizer que é um grande prazer poder contar com a sua participação neste fórum, e espero que retorne sempre que possível. Sempre apreciei o contato entre profissionais de diferentes áreas.

      Mas eu também preciso esclarecer dois pontos extremamente importantes. Farei isso enumerando itens. Mas, por favor, entenda que minha forma de exposição apenas reflete uma maneira como prefiro lidar com as importantíssimas questões que aponta.

      1) Certamente admito a existência de tópicos de pesquisas importantes que têm mais interesse local do que global. No entanto, este mesmo discurso tem sido sistematicamente usado para perpetuar um modus operandi de uma quantia excessivamente grande de professores universitários meramente preguiçosos. E, pior, até mesmo professores que costumam publicar em bons periódicos internacionais adotam uma postura não muito diferente daquela que indico nesta postagem. Pois mesmo entre matemáticos e físicos, por exemplo, existe a prática da "pesquisa segura". Pesquisa segura é aquela que garante publicação em veículo internacional, mas sem uma perspectiva realista de relevância a médio ou longo prazo. Ou seja, existe sim no Brasil um sistema de produção "intelectual" em série, que visa apenas ao atendimento de normas burocráticas de órgãos de fomento à pesquisa. E os professores são tolos o bastante para se submeterem a isso.

      2) Existe sim interesse em aspectos de história local entre periódicos de história publicados por excelentes editoras que promovem circulação internacional. Um bom exemplo é o Ethnohistory que, de acordo com o Times Higher Education, está entre os 15 melhores periódicos de história. No site desta revista consta o seguinte: "Of particular interest are those analyses and interpretations that seek to make evident the experience, organization, and identities of indigenous, diasporic, and minority peoples that otherwise elude the histories and anthropologies of nations, states, and colonial empires." Além disso, existe uma contradição inerente nos estudos de história em nosso país. Um excelente exemplo é apresentado na postagem abaixo, a qual também foi citada em outras mídias.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2013/04/como-conhecer-o-passado-do-parana-basta.html

      Enquanto Estados Unidos conta com um dos maiores acervos do mundo sobre comunismo e Austrália conta com uma das melhores bibliotecas paranistas do planeta, o Brasil ainda insiste em seu isolamento.

      Observe que não estou questionando a relevância de seu trabalho ou do periódico que mencionou. O que questiono é o discurso automático usado por muitos e que serve apenas como escudo contra a real exposição perante a comunidade acadêmica mundial.

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  11. Estimado Prof Adonai

    Concordo com suas colocações e respeito as pessoas que manifestaram suas opiniões a respeito (contra ou a favor), no entanto o que precisamos rever no Brasil é a forma como são avaliados os currículos pela CAPES.
    A produção intelectual deve ser respeitada não pela quantidade e sim pela qualidade do que se produz em qualquer meio acadêmico.
    Temos exemplos de grandes pesquisadores brasileiros que se destacaram mundialmente por pesquisas sérias realizadas em outros países e que só saíram de seus ambientes universitários no Brasil por terem tido mais oportunidades no exterior para realizarem suas pesquisas, e um exemplo disso é o que acabou de reportar sobre a Austrália. Acredito que o sistema de avaliação de currículos realizado pela CAPES deva ser alterado, pois hoje se dá maior valor à quantidade muitas vezes pelo EGO concentrado de orientadores que querem ver seus nomes nas publicações de alunos. O funcionalismo público tem muito haver com esse sistema de avaliação de currículos.

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    1. Anônimo

      Certamente os atuais critérios da CAPES para avaliação de produtividade devem mudar. Este sistema QUALIS, por exemplo, tinha que ser a primeira coisa a sumir. Na postagem abaixo há uma discussão sobre a falta de sintonia entre QUALIS e a realidade mundial.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2013/09/qualis-uroboro.html

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  12. Ricardo Salles, UNIRIO.
    Coisas boas e coisas nem tanto.
    Resolve publicar nas revistas mais respeitadas e não em Português? Acho que não. O critério de avaliação é mais difícil, mas também pode sofrer - e na minha opinião, ao menos em minha área, sofre - dos mesmos problemas de avaliações mais preocupadas em verificar o cumprimento de critérios do que em avaliar o resultado.
    Um exemplo no meu campo. O estudo da História do Brasil concentra 80% de nossos pesquisadores e é o que mais interessa ao desenvolvimento do País. No entanto, porque seguimos os critérios definidos pelo CNPq, fazer uma carreira voltada para fora (publicar em inglês, em revistas internacionais, comparecer ao maior número possível de congressos fora do país, fazer estágios pós-doutorais fora, etc.) dá mais pontos no Lattes. No entanto, substantivamente, significa dialogar com uma parcela mínima da comunidade internacional de historiadores (que normalmente tem um forte viés eurocêntrico) e deixar de lado, ou só dialogar de forma interposta, com os historiadores brasileiros que estudam História do Brasil.

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    1. Caro Ricardo Salles

      Peço que leia acima minha resposta à professora Carla Oliveira. Além disso, peço que pondere sobre o seguinte.

      A questão na qual tanto insisto neste blog não tem nada a ver com respeitabilidade, mas com visibilidade. Você mesmo coloca muitíssimo bem o fato da comunidade internacional de historiadores ter um viés eurocêntrico. E é justamente por isso que precisamo persistir na maior visibilidade internacional da história de nosso país. Meu ex-orientador de mestrado, Germano Bruno Afonso, é hoje o único especialista em arqueoastronomia indígena brasileira de nosso país. E talvez seja o único do mundo ainda em atividade. As culturas indígenas brasileiras contam com uma fenomenal riqueza em termos de conhecimento astronômico. No entanto, além de nossos índios não passarem esse conhecimento na forma de linguagem escrita, ainda por cima estão sendo perigosamente ignorados pelo mundo e por nós mesmos. O professor Germano tem sido sistematicamente vítima de forte preconceito entre seus pares, justamente por abrir mão de pesquisas mainstream em mecânica celeste e astrofísica (as quais ele fez muito bem). Isso porque os físicos de nosso país não se interessam minimamente pela história de nossos povos indígenas. Ou seja, precisamos mudar esta visão. Hoje o Brasil todo parece se espelhar no exemplo europeu de produção de conhecimento, mas sozinho, sem contato real com Europa ou o resto do mundo. Afinal, o Brasil é necessário diante do mundo ou apenas para si mesmo?

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    2. "O estudo da História do Brasil concentra 80% de nossos pesquisadores e é o que mais interessa ao desenvolvimento do País." Eu realmente questiono o embasamento da afirmação de que a história do Brasil é o que mais interessa ao desenvolvimento do País. A fixação e a monomania nacional assolam as ciências humanas neste país. No fundo, saber sobre o Brasil não tem mais valor do que saber sobre a história do Sudeste Asiático. É simples assim. Por outro lado, eu diria que acontece justamente o contrário do descrito por você: quanto mais desenvolvido (econômica, social e cientificamente) um país é, mais ele se volta "para fora", para realidades que não são a sua. Dizer que existem pessoas que simplesmente "não se interessam pelo Brasil", mesmo em produções de ciências humanas, é um mito, uma justificação para fechar-se a um círculo de produção de conhecimento denominado "história do Brasil", e não incluir-se em círculos mais amplos. Veja o que acontece, por exemplo, na área de etnologia indígena ou antropologia, em cujos casos sempre existiu uma frutuosa cooperação internacional, em ambos os sentidos, entre pesquisadores estrangeiros e brasileiros. É um erro pensar que a realidade brasileira só seria melhor compreendida por brasileiros, em português. O eurocentrismo, o "imperialismo" etc. são desculpas esfarrapadas e que não se sustentam face a uma realidade acadêmica internacional cada vez mais multiétnica: veja a quantidade de "não-ocidentais" que vão aos grandes centros de pesquisa americanos e europeus para estudar questões ligadas às suas próprias regiões de origem. Não é nem um pouco "ruim" um "árabe" ir para Harvard para estudar os "árabes". Existe uma empáfia entre a intelectualidade brasileira de que é necessário justificar o conhecimento e a vida acadêmica ou científica com um suposto amor nacionalista.

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    3. É um alívio perceber discussões que eu mesmo frequentemente evito.

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  13. MUITO BOM! MAS GOSTEI MESMO DE "APÓS SUA MORTE NINGUÉM SE LEMBRARÁ DA SUA REMOTA EXISTÊNCIA"! AH!AH!AH! LOGO A COMPROVAÇÃO CIENTÍFICA QUE MESMO NÃO PODERIA SER, NUNCA SERÁ REALIZADA.

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  14. Professor Adonai,
    Parabéns pelo texto. Embora ponderações e ressalvas fossem necessárias no texto, creio que no essencial ele é bastante pertinente.
    Há pouco conclui meu mestrado em direito. Apesar da seriedade do curso e da dedicação do corpo docente, espantou-me que poucos realmente têm relevância teórica na área jurídica - o que é observável também nas demais IES que tem curso stritcto sensu em direito.
    Todavia, isso não impede que os docentes tenham um currículo Lattes bem recheado, em geral com publicações de pouca importância teórica. Para mim fica claro que há um preocupação em atender os critérios da CAPES, a despeito da qualidade da produção intelectual. Há uma profusão de obras coletivas e congressos de caráter duvidosos, além de grupos de pesquisa que promovem atividades que pouco tem a ver com a finalidade deles, com muita gente, sendo que são poucos o que fazem realmente alguma coisa, e pouca produção.
    Como sugestão, peço que também utilize o Linkedin para compartilhar as suas postagens (além do twitter e facebook).

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    1. Anônimo

      Grato pelo apoio e pelas recomendações. Estou avaliando tanto mudanças no visual do blog quanto formas de divulgação. Com relação à sua área de atuação, permita-me recomendar o excelente texto de um colega seu de profissão. Está no link abaixo.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2014/05/o-estado-da-educacao-nas-faculdades-de_8.html

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    2. Opa!
      Já tinha lido o texto do colega. É muito bom, retrata bem a realidade das escolas de direito no Brasil. É preciso relatar também como isso impacta diretamente a (má) qualidade do profissional que é formado por elas.
      Te mandei um convite lá no Linkedin (espero que aceite).

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    3. Grato. Assim que puder, acessarei o Linkedin. É uma rede social que tenho ignorado há muito tempo. Tentarei sanar esta deficiência.

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  15. Ótimo texto, Adonai. Só acho que não é problema só do Brasil. É um problema da Ciência no mundo
    (excesso de produção inútil, desonestidade), que parece estar pior no Brasil.

    Na minha área principal de pesquisa atualmente, Engenharia de Software, em que sou um iniciante,
    vejo muitos artigos sendo publicados que claramente não vão avançar a parte teórica nem a parte
    prática. Convivo com muitos engenheiros de software e sei que eles ignoram boa parte da pesquisa
    que é feita supostamente para ajudá-los. E por que estes pesquisadores continuam publicando
    artigos em excelentes revistas e conferências (que são até mais difícieis de publicar do que boa parte
    das revistas)? Porque eles avançam em suas carreiras com estas publicações. E não é por causa da
    CAPES ou do QUALIS. A CAPES, com o QUALIS, só copiou o sistema da Europa e EUA.

    Abraços,
    Adolfo
    UTFPR-Curitiba
    Atualmente na North Carolina State University em período sabático.

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    1. Adolfo

      De fato é problema é muito mais profundo do que se aponta nesta postagem. Tudo o que cada um de nós percebe é apenas a ponta do iceberg, em meio a muita névoa.

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  16. Adolfo Neto,

    Tendo vivido vários anos no meio acadêmico brasileiro, e os últimos 15 anos no exterior, minha experiência é de que, assim como em muitas outras áreas, se o Brasil copiou algo do exterior na área acadêmica, copiou sem entender.

    É claro que é sempre mais difícil achar uma certa conferência em que seja mais difícil publicar do que em uma certa revista. Mas, já que você é profissional da área de Engenharia de Software, deve saber que uma publicação em certas revistas da ACM, IEEE e algumas outras instituições é algo bem relevante.

    Além disto, há de se citar que, em grande parte do resto do mundo, o meio acadêmico tem convivência direta com o meio empresarial, e não pode se submeter a calendários das conferências. Isto se deve ao fato de que, se você está realmente fazendo pesquisa de ponta relevante, principalmente em uma área como software, certamente estará em uma instituição que tem parceria com alguma empresa, e terá de esperar ao menos a aplicação de uma patente antes de publicações. Não há como uma Universade hoje, por exemplo, estar fazendo pesquisa relevante em Computação Quântica sozinha. Muito do que realmente ficará para a História sequer jamais será publicado a não ser via patentes.

    Os problemas citados pelo Adonai Sant'anna eram e infelizmente ainda são bem reais. Eu não conhecia o blog, e só comecei a ler neste artigo, indo depois para outros, que também apontam problemas que presenciei há mais de 15 anos, que infelizmente parece que ainda ocorrem no país. É preciso uma geração inteira para mudar isto, além de enorme vontade política.

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    1. Sim, Alisson, sei que algumas revistas são bem melhores do que a maioria dos congressos (senão todos). Isto é o normal. O anormal é que ter um artigo no ICSE é mais difícil e vale mais (para quem entende) do que em muita revista pequena.

      Será mesmo que "em grande parte do resto do mundo, o meio acadêmico tem convivência direta com o meio empresarial"? Não vejo isso tão forte assim nos EUA.


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    2. Adolfo,

      Sem querer desmerecer a North Carolina State University que você está visitando, mas apenas compartilhando uma constatação realista: "State University" nos EUA não é realmente muito distante de uma "Universidade Estadual" no Brasil. Os pesquisadores de primeira linha não vão ficar à mercê de governadores estaduais nos EUA, os quais também não ficam muito longe dos governadores brasileiros em suas sandices. Como sempre, da mesma forma que no Brasil há a exceção de São Paulo, nos EUA a exceção é a Califórnia. Uma ou outra Universidade estadual aqui ou ali pode ter um pesquisador de ponta, que quer morar em certo lugar por conveniência pessoal, motivos familiares, etc.

      Se você vai a Harvard, Stanford, Carnegie Mellon, MIT, Princeton e outras Universidades, em sua maioria privadas, verá laboratórios inteiros financiados por empresas, mas com pesquisa independente. Quando algo é promissor, o pesquisador pode pedir capital para fazer sua própria empresa, vender a tecnologia, ou mesmo colocar a tecnologia sob licença com royalties para a instituição. Ou, até por motivos ideológicos, pode publicar e colocar a tecnologia no domínio público. Às vezes, é até obrigado a fazê-lo, pois recebeu financiamento de instituição de fomento à pesquisa. Mas, no caso geral, tal fomento seria atualmente insuficiente na maioria dos casos em que se quer realmente fazer inovação. Fica fora de tópico discutir a ideologia de se fazer ou não parcerias entre Universidades e empresas. Mas discutir a História da Ciência em geral e, principalmente, da Ciência da Computação, sem citar empresas, creio que seria impossível.

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    3. Alisson, não é desemerecer. É fato que a NC State é uma universidade média, digamos assim. E seu papel é mais de formar gente do que fazer pesquisa.

      Talvez por isso mesmo a NC State seja um modelo mais realista para a minha universidade (UTFPR). Nunca nos próximos 100 anos, creio, teremos todo o dinheiro que MIT, Princeton, e as outras que você citou tem. E a NC State tem sim parcerias com empresas (SAS, por exemplo). Só que boa parte do dinheiro ainda vem dos órgãos estatais e de contribuições individuais.

      As universidades que você citou são o topo do topo. Poucos alunos, relativamente poucos professores. Quantos % dos alunos americanos são formados em universidades do calibre das que você citou? Quantos % das empresas surgem destes alunos e professores? Não dá pra se basear na exceção (você escreveu "em grande parte do resto do mundo, o meio acadêmico tem convivência direta com o meio empresarial").

      Parcerias entre Universidades e empresas fica como um bom tópico para um futuro post do Adonai.

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    4. Caros Alisson e Adolfo

      O tema da parceria entre universidades e empresas é ainda negligenciado neste blog. Mas pretendo sanar esta deficiência por aqui. No entanto, vale observar que a questão não se resume a dinheiro. Falta no Brasil o espírito da inovação e de empreendedorismo em tecnologias de ponta. Ou seja, existe uma inércia cultural gigantesca por aqui. Para mudar esta inércia, faz-se necessária a articulação de uma massa crítica de gente que quer e pode fazer o país avançar.

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    5. Sim, falta no Brasil e um pouco (talvez muito) na Europa também. Comparativamente, acho que os EUA são muito melhores neste aspecto do que a Europa.

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  17. Adolfo e Adonai,

    O tema de parceria entre Universidades e empresas é algo que muito me interessa, e o qual vivi no passado de um lado, e hoje vivo do outro ponto-de-vista. Fico à espera do post.

    Adolfo: o contexto do meu comentário era este post sobre respeito acadêmico, que é mais relacionado à pesquisa e publicações. Mas a parte que você citou ("...em grande parte do resto do mundo, o meio acadêmico tem convivência direta com o meio empresarial") continua válida mesmo fora deste contexto. Você mesmo citou a parceria da NCSU com a SAS. E tais parcerias não podem ocorrer apenas como troca de dinheiro. Mais importante é o investimento no futuro, não apenas da pesquisa, mas também da mão-de-obra qualificada. Um estágio, e ainda melhor, um programa continuado de estágios, é uma parceria muito mais fácil e com retorno mensurável imediato. Principalmente considerando que, em muitas áreas, o estágio é obrigatório para a conclusão de curso. Não se pode querer exatamente copiar Harvard já no primeiro ano de uma parceria, que é o que exatamente apontei no começo do meu primeiro comentário (...copiam sem entender). A briga pelo profissional qualificado nos EUA começa já na busca de estagiários, que não são tratados como mão-de-obra barata, mas sim como "o futuro funcionário" pelo qual se está competindo com todas as outras empresas da área que também estão querendo empregá-lo.

    Obrigado pela boa discussão, e Feliz 2015!

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  18. Parece que o Blog começou a respirar e tomar vida. Farei uma afirmação que penso ser pertinente ao que está publicado aqui: "Ciência por si só não basta, há que ter visibilidade!" No Brasil alguém disse um dia que "não basta ser honesto, é necessário parecer honesto." Resultado final é que no Brasil acabou sendo traduzido por: basta parecer honesto! Pois na afirmação que citei acima, no Brasil virou, basta ter visibilidade!
    Seguindo o dito acima, penso que fazer ciência é suficiente e se basta! O resto virá sem preocupação, mesmo que demore. Por isto sempre sugiro a criação de algo novo. Um bom exemplo pode ser a "Articulação da Massa Crítica." Penso que, no momento em que a massa crítica conseguir se articular, desenvolvendo simplesmente pesquisa, automaticamente algo novo acontecerá, seja lá o que for! Terá sido dado o arranque, agora é só acelerar!
    Portanto, faça-se ciência, como estamos fazendo aqui e agora, já que "não temos nada melhor para fazer" e o mundo científico brasileiro decolará. Se nosso objetivo for visibilidade é melhor ficar na academia!!!!!!!!!

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  19. Eu quero mudar minha comunidade, que infelizmente é míope e surda para o resto do mundo. E não temo a morte intelectual. Mas me desagrada a perspectiva de refugar o mundo resmungando e passar berrando esta vida marvada (videvidamarvada).

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    1. Caro Daniel

      Se compreendi o que escreveu, certamente concordo com a sua visão. É muito mais relevante construir do que que criticar.

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  20. SIMPLESMENTE GENIAL.

    Mais uma postagem com conteúdo pertinente e verdadeiro que mostra como pessoas ingênuas, porém bem-intencionadas e que querem fazer o correto são sumariamente ofuscadas e até excluídas de seu círculo profissional por resistirem a participar deste tipo de "arranjo acadêmico".

    Parabéns Adonai.

    Desta vez conseguiste escancarar de modo quase irrefutável uma triste verdade da lamentável cultura brasileira.

    Queria muito que tivesses sido químico (ou mesmo que eu tivesse partido para a Matemática) para ter sido seu aluno, orientado, ou mesmo "alguém por perto" para ter um excelente ponto de referência, no qual pudesse me espelhar desde que ingressei na UFPR, em 2001.

    Acho que se eu tivesse te conhecido em 2001 (e não apenas em 2008, quando já havia concluído meu mestrado), talvez meu caminho tivesse sido diferente.

    É claro que na época, como adolescente, ainda poderia estar apegado um pouco a desenhos e animes, mas nada que fosse prejudicial.

    Fico feliz em saber que muitas suspeitas que tenho desde 2001 sobre as universidades brasileiras em geral encontram respaldo.

    =)

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    1. Oi, Leandro

      Grato pelo apoio. Mas garanto que não sou referência que valha a pena. Os textos que mais gosto estão entre aqueles que foram escritos por colaboradores. O sucesso desta postagem ainda é um mistério para mim. Tenho a impressão de que muita gente neste país sofre demais nas universidades e de forma que não leva a lugar algum.

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    2. "[...] O sucesso desta postagem ainda é um mistério para mim. [...]"

      Nenhum dos outros textos parece chegar tão próximo da raiz fundamental (do cerne) do problema de modo tão eficiente e eficaz quanto este texto.

      Esta postagem escancara de modo magistral aquilo que se nota costumeiramente no cotidiano acadêmico, mas que a todo momento é abafado por aqueles que somente querem viver de "sombra e água fresca" nas universidades públicas.

      Como aqueles que querem mudança aparentemente não conseguiram ainda articularem-se socialmente para uma reação significativa ao modelo atual de Sistema, optam por calarem-se e sofrerem em silêncio, a ter que eventualmente "baterem de frente" contra os que perpetuam as bizarrices do Sistema, visto que correm o risco de serem perseguidos, marginalizados e oprimidos de maneiras fúteis e pueris.

      O bom, pelo que tenho visto, é que as consequências negativas de tudo ruim que foi "plantado" estão aparecendo de forma escancarada e extremamente prejudicial à população, a começar pela economia nacional. Com isso, o grau de tolerância da população parece estar diminuindo e as pessoas parecem estar mais "reativas" do que até então.

      Concordo com sua impressão de que existem pessoas que estão sofrendo demais nas universidades e, pior, de maneira que não leva a lugar algum.

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  21. "Tem gente que sofre demais nas universidades!" Casualmente eu também tenho esta triste impressão.

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  22. Pura realidade que foi ficando cada vez mais intensa com o passar dos anos ....

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  23. Prof .Adonai,

    Viu o artigo do Rogério Cezar de Cerqueira Leite?

    Segue o link: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed841_lixo_academico_causas_e_prevencao

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    1. Anônimo

      Excelente artigo! Divulgarei na página Facebook do blog. Grato.

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  24. Um artigo interessante sobre a carreira de docente:

    http://www.polbr.med.br/ano15/cpc0115.php

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    1. Excelente recomendação, Anônimo. Divulgarei na página Facebook deste blog. Grato.

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  25. Por favor, senhor Adonai, permita que seus pares acadêmicos sejam diferentes de você mesmo sabendo que nós nunca poderemos chegar aos seus pés. Perdoe nossa incompetência, mas alguém precisa organizar ou editar livros, publicar em anais de congressos e orientar teses, caso contrário, o Ensino não prospera. Nós, pobres mortais, precisamos fazer amigos na Academia para que possamos nos desenvolver, trocar experiências e idéias. Não somos como o senhor, um Gênio autodidata que não precisa de nada disso. Também não gostamos muito de cargos de chefia e direção, mas alguém tem de tomar as decisões que determinam o presente e o futuro de nossas Escolas não é? Também não apreciamos fazer reuniões. Mas precisamos ouvir o que os nossos colegas tem a dizer sobre nossas atividades e como melhora-las. Eu sei que essas são atividades medíocres demais para mentes tão brilhantes como a sua. Mas, mesmo assim, perdoe-nos. Perdoai Adonai...

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  26. Adonai, por favor, me explica como funciona isso: Eu faço faculdade e ninguém nunca me explicou como funciona revistas cientificas periódicos onde leio o que há de mais recente na minha área (computação) etc sei que essas coisas existem vi por ai mas não sei exatamente como funciona.
    Quero assinar alguma revista boa sobre a minha área e também ter uma visão geral de como tudo funciona e onde publicar. Obrigado!

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    1. Cláudio

      Os passos mais importantes são:

      1) Realizar um projeto de iniciação científica (pode ser informal) sob orientação de um(a) professor(a) experiente que sistematicamente publique em periódicos especializados e indexados pelo Science Citation Index. Você deve procurar por um(a) orientador(a) que tenha condições e interesse em desenvolver um projeto que possa render publicação em parceria entre ele(a) e você. Nada substitui o contato humano com um bom pesquisador.

      2) Não há necessidade de assinar periódicos especializados. Eles são muito caros. Se você estuda em universidade pública, tem acesso a bancos de dados em www.periodicos.capes.gov.br. Para isso, basta usar um computador de sua universidade ou cadastrar seu computador pessoal na universidade onde estuda. O Governo Federal investe muito dinheiro todos os anos, para que alunos, professores e pesquisadores tenham acesso a bancos de dados fundamentais para a pesquisa. O banco de dados mais importante é Web of Science. Não dê atenção ao sistema QUALIS. O que interessa são padrões internacionais de qualidade e não os brasileiros.

      3) Periódicos como Nature, Science e Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) são multidisciplinares e interdisciplinares, além de serem referências obrigatórias para todas as áreas do conhecimento. Acompanhar o que se publica nessas revistas ajuda consideravelmente a manter-se atualizado sobre os mais recentes avanços da ciência.

      4) Manter contato com pesquisadores do mundo todo (via e-mail) também é importante. Se você descobre um artigo em Web of Science que está indisponível para leitura, pode enviar e-mail para os autores, pedindo por uma cópia do artigo. E-mails de autores estão disponíveis em Web of Science. E autores sempre têm interesse em divulgar seus trabalhos.

      5) Participar de eventos científicos (colóquios, congressos, simpósios, oficinas) também faz parte do processo de inserção social nas redes científicas. Palestras são importantes. Mas é na hora do cafezinho que se trocam ideias realmente importantes.

      6) Sua área (computação) é altamente interdisciplinar. Portanto, procure contato com profissionais de outras áreas: engenharias, matemática, filosofia, artes, física, biologia, administração, educação, cinema, música etc. Todas essas áreas necessitam da computação. Veja do que esses profissionais precisam. Parcerias com profissionais de áreas distintas comumente resultam em ótimos projetos.

      Em suma, você precisa conviver com a atividade científica, diariamente.

      Espero ter ajudado.

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    2. Complementando...

      No Brasil existem algumas boas revistas de divulgação científica, como Scientific American Brasil e Pesquisa Fapesp.

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  27. Recomendo a leitura desse texto:
    http://backreaction.blogspot.com.br/2017/03/academia-is-fucked-up-so-why-isnt.html

    Ela faz colocações muito pertinentes.

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    1. Lucimário

      Grato pela excelente recomendação. Realmente o texto é ótimo e retrata muito bem a indignação de uns poucos que param para pensar.

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