sábado, 31 de maio de 2014

Depoimento de Ex-Aluno do Curso de Física da UFPR



Em setembro de 2012 foi publicada uma postagem na qual constava o depoimento anônimo de um superdotado. A maior parte do relato desta pessoa era sobre sua experiência como aluno no Curso de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Desde então já fui procurado por várias pessoas que se identificaram fortemente com aquilo que leram na postagem acima mencionada. 

Como eu mesmo tenho um histórico de divergências com o Curso de Física da UFPR, evitei a publicação de diversos depoimentos semelhantes àquele do superdotado. Isso porque não quero transparecer a ideia de que estou de alguma forma empenhado na promoção de qualquer propaganda contra tal curso. Até porque os problemas crônicos do Curso de Física da UFPR são comuns a muitos outros cursos de diversas universidades espalhadas pelo território nacional. E o principal problema identificado em inúmeras situações é a falta de motivação.

No entanto, o depoimento abaixo tem dois diferenciais importantes em relação à postagem sobre o superdotado: 1) A ênfase no texto é sobre o problema da motivação tanto de alunos quanto de professores e 2) O texto é assinado.

Se houver algum aluno ou ex-aluno de qualquer universidade que queira contrastar os depoimentos já publicados aqui, no sentido de relatar algum ambiente motivador, certamente ficarei feliz em publicar seu testemunho. Mas, por enquanto, o que temos aqui é mais uma consequência do distanciamento entre universidades brasileiras e a realidade do mundo externo a elas.

A verdade é que as universidades públicas deste país estão apodrecendo por dentro e as privadas jamais atingiram maturidade suficiente para apodrecerem. Certamente existem exceções, mais na forma de pequenos focos de inovação e estímulo. Mas um país do tamanho do nosso jamais será construído a partir de exceções. 

Segue abaixo o testemunho de Denis Wiener, ex-aluno meu do Curso de Física da UFPR. Denis ainda sonha em realizar contribuições em física teórica. Mas ele percebeu que este sonho não poderia ser alcançado em uma graduação em física. 

Vale observar que o Centro Politécnico (mencionado no texto abaixo) é o campus da UFPR que sedia o Curso de Física.

Desejo a todos uma leitura reflexiva.
_____________

Depoimento

escrito por Denis Wiener

Ingressei no Curso de Bacharelado em Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2009. Três anos depois eu estava deixando o Centro Politécnico com uma angústia tremenda. Meu maior medo era ser "engolido" pelo Departamento de Física e acabar preso no tempo, me tornando um aluno ou professor "jurássico" desse local.  Hoje em dia evito até mesmo passar em frente ao Centro Politécnico. Caminhar pelo local então é uma tremenda tortura. O Centro Politécnico e, principalmente, o Departamento de Física da UFPR pareciam lugares que retiravam toda a minha energia e amor pela ciência. É incrível pensar como meu amor pela ciência nasceu e morreu nesse mesmo local.

No ano de 2007, estava sendo observado o Cometa Mcnaught. Fiquei sabendo então que o astrônomo Germano Bruno Afonso (professor titular aposentado do Departamento de Física da UFPR) estaria com seu telescópio no parque Barigui (em Curitiba, Paraná), fazendo observações abertas ao público. Então eu, como grande entusiasta de astronomia e qualquer coisa relacionada ao universo, fui até o local e com um simples gesto de adolescente perguntei ao professor Germano: "Professor, eu quero ser astrônomo, como eu consigo isso?" Ele então respondeu: "Você poderá cursar Física na UFPR se isso lhe interessar". Dois anos depois lá estava eu, descendo do ônibus para a palestra "motivacional" do Curso de Física. Eu logo deveria ter suspeitado quando nessa palestra não foi nos explicado quais caminhos profissionais um físico pode seguir no Brasil. Pobre calouro. Mas como um bom brasileiro, eu não desisto nunca, nem mesmo sabendo que estava no caminho errado.

No meu ponto de vista, o Curso de Física na UFPR não preparava ninguém para o mundo real. Se eu fechar meus olhos, consigo lembrar de toda a rotina dos futuros físicos (ou futuros futuristas) daquele local. Todos descendo de um ônibus extremamente lotado que para em frente ao Centro Politécnico, com suas mochilas verde-musgo nas quais se lia "Física", com camisetas da banda  AC/DC, andando rápido pelo meio da multidão, entrando para as salas de aula onde ninguém nem mesmo diz "Bom dia", alguns (que eu nunca ouvi nem mesmo suas vozes) sentados esperando um professor de física chegar desanimado para dar uma aula entediante de duas horas seguidas no mesmo tom de voz monótono. Na hora do intervalo muitos se dirigiam para o Centro Acadêmico de Física, com certeza um local a ser evitado, pois era o habitat dos alunos que estão perdidos no tempo entre o primeiro e o quarto ano do curso, e que ainda têm a esperança de contribuir com a ciência, apesar de ainda estarem cursando Cálculo II pela n-ésima vez seguida. Afinal, sendo brasileiros, eles não desistem nunca. Lembro até hoje daquele local. Sofás furados, um videogame velho, o teto xadrez pintado de preto e branco, uma minúscula foto do professor Hugo Kremer na parede, uma mesa de pebolim. É fácil perceber por que aquele é um mundo ideal. A maioria dos alunos ainda não sabe o que é o mundo real e talvez nunca saibam se não saírem de lá. Percebi lá (e por outros motivos) que a vida não é ficar jogando videogame e pebolim após assistir aulas chatas do Curso de Física. No mundo real as pessoas têm que batalhar por suas coisas, contas devem ser pagas, casas devem ser compradas, conforto deve ser buscado. Ostentação é diferente de buscar uma vida digna. Viver com dignidade é algo que muito me angustiou vivendo e estudando no Centro Politécnico, pois lá eu vi que ninguém pensa nisso, a maioria se contenta com nada. 

A angústia que eu sentia nessa época era tão grande que comecei a ter insônia e tremedeiras constantes, com medo de me tornar um professor do Departamento de Física. Eu me imaginava sentado em uma escrivaninha, em uma sala apertada em um corredor escuro e sombrio do Departamento. Imaginei tornando-me um ser sem nenhum contato social interessante, sem saber sorrir, apenas trabalhando em uma pesquisa que jamais será relevante para a vida das pessoas no mundo. Imaginei sendo um aluno que fica o dia todo estudando, recebendo uma bolsa-miséria para ser monitor de uma disciplina entediante. Eu queria viver, queria ser dinâmico, queria ter uma vida digna, queria ter uma família, uma casa, um carro. Foi então que eu tomei a decisão mais importante da minha vida: deixar o Curso de Física, a UFPR e todo esse mundo da fantasia e ingressar em uma faculdade e um curso que podem me ensinar como encarar a vida real e como resolver os problemas reais. Hoje em dia eu curso Engenharia Mecânica em uma faculdade particular e trabalho na iniciativa privada. Este não é o curso da minha vida, mas é algo que eu gosto de fazer e que atualmente me dá uma estabilidade financeira e uma vida mais digna para planejar meu futuro e me dedicar à ciência. Afinal de contas, a vida não é o que se ensina no Centro Politécnico. Meu amor e minha dedicação pela ciência irão continuar por toda a minha vida. Aprendi que não é necessário cursar Física para se fazer física. Pois o Curso de Física não me ofereceu nada de útil para a minha visão de mundo, apenas me mostrou como não devo ser.

Carl Sagan (autor do livro Cosmos) disse uma vez em entrevista: "A ciência é mais do que um corpo de conhecimento, é uma maneira de pensar, uma maneira de analisar criticamente o mundo e a vida". Dessa forma me pergunto por que os alunos do Curso de Física (que querem ser cientistas) não analisam criticamente as suas vidas e para qual caminho elas estão seguindo.

42 comentários:

  1. Cursei Biologia na UFPR por um ano e tive as mesmas impressões que o autor do texto e o do depoimento. Curso lotado de alunos desmotivados e professores desmotivadores.

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    1. Pois é, Andrey. Por que os alunos não unem esforços, articulados através de centros acadêmicos, e organizam um evento de grande porte para discutir sobre o problema da motivação em sala de aula? Esta seria uma forma de pressão, principalmente se tal evento ocorresse periodicamente, cobrando atitudes e resultados.

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  2. Oi professor!

    Ingressei no curso de física da UFPR exatamente no mesmo ano que o Denis. Na época também me iludi com as perspectivas de se ter uma vida digna e fazer alguma diferença no mundo. Hoje eu vejo que é possível prever o futuro da maior parte dos alunos que chegam ao final do curso. Os físicos da UFPR estão destinados a seguir exatamente esta sequência: mestrado, doutorado, concurso público, pós-doutorado, fim da vida.

    Eu mesmo já utilizei palavras semelhantes às do Denis para descrever o meu futuro como físico. E hoje, embora não tenha mais nenhum interesse pela formação em física, mas continue amando a ciência, me vejo de certa forma preso ao curso em que ingressei. Isso porque vejo que a realidade de outros cursos de instituições públicas é muito semelhante à do curso de física, e também porque ainda não tenho condições financeiras para pagar por um curso em instituição privada.

    Enfim, a contragosto, terei que engolir as matérias que faltam para a minha formação para poder dar prosseguimento à minha vida.

    Parabéns pelo depoimento Denis!

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  3. Estimado Adonai,
    também fui aluno do curso de física UFPR, no final dos anos 90. Tranquei o curso em 2002 e nunca mais passei por lá. Concordo com o autor do texto quando diz que: "Aprendi que não é necessário cursar Física para se fazer física". Para mim, um grande inspiração para a ciência foi R. Feynman. Aliás, quando estive no curso de física, realmente aprendi alguma coisa com suas aulas de álgebra linear.
    Um abraço,
    Gilson Maicá.

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  4. "Eu queria viver, queria ser dinâmico, queria ter uma vida digna, queria ter uma família, uma casa, um carro." Deixando de lado aspectos filosóficos dessa escolha de vida e o que se entende por "viver", não deixa de ser estranho que esse "mínimo" pode ser adquirido sendo um acadêmico em países onde a pesquisa e o ensino são valorizados. Isso não é nada demais, e seria considerado até mesmo como um pouco mesquinho e banal. Acho que a maioria quer no mínimo isso, e os que não querem, têm o direito de serem respeitados em suas escolhas. A questão é que não existe uma correlação entre "viver com dignidade" e "fazer ciência" neste país. A situação não é diferente em outros lugares, mas aqui chega a ser deprimente e desesperador. Se você entrou no curso de física esperando que conseguiria emprego, casa, carro, casamento e relacionamentos sociais, é a mesma atitude de alguém que entra em um curso de direito, odontologia, medicina ou o que quer que seja, com o mesmo objetivo. Mesmo assim, não é o curso em si que vai lhe dar tudo isso. A diferença é que o curso de física, ao contrário de outros cursos mais aplicados, chega no limite em que se torna um empecilho para a realização desses objetivos, e então é melhor buscar outra carreira.

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    1. Oi. Entendo sua crítica. Já pedi para o autor do texto responder ao seu comentário. De qualquer modo, vale observar que Denis não estava atrás apenas de uma vida confortável, mas também do desenvolvimento de física teórica.

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    2. Olá,

      Concordo com sua ideia de que cada um tem sua maneira de definir o que é "viver". Isso é observado já que diferentes pessoas foram criadas em diferentes famílias e possuem diferentes visões de mundo. Mas como mencionado, esse depoimento é a minha visão de mundo e minhas expectativas em relação à ciência. Mas achei válido escrevê-lo já que algumas pessoas precisam de um "empurrão" inicial para ter uma nova visão.
      Cabe ressaltar que a minha angústia vinha de uma época em minha vida (durante o curso de física) em que enfrentei sérios problemas pessoais, conheci pessoas que dependiam muito financeiramente de mim por motivos de saúde. E nesse momento eu parei para refletir que infelizmente a carreira como físico não daria estabilidade para a minha vida, a profissão de físico não tem valor nenhum dentro de uma indústria, ou seja, o único caminho para um físico no Brasil é seguir recebendo bolsas de estudo para continuar pesquisando. E eu pergunto: E se um dia essas bolsas acabarem? O que garantirá meu futuro?
      Nesse momento eu parei para pensar que eu precisava ter um "diploma" em um curso que me desse segurança de emprego no futuro. Para que então, caso eu tivesse novos problemas de saúde ou financeiros, eu tivesse como garantir o sustento daqueles que amo. Aprendi na minha vida, que fazer aquilo que gostamos não necessariamente deve ser a nossa profissão registrada. Afinal, pelo simples fato de termos um estômago, devemos buscar algo sempre melhor.

      Em relação à ciência, meu interesse não acabou. Hoje em dia tenho grande interesse em física teórica e na divulgação científica. Durante grande parte do meu tempo me dedico ao estudo da física e matemática, e pretendo em breve publicar algum artigo em uma revista de grande importância para a ciência.

      Denis

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    3. Caro Denis. Passei dez anos como docente em Universidade Federal e compreendo sua frustração. Me exonerei da academia por este motivo. Infelizmente posso dizer que a Universidade se corrói por dentro. Por fora parece lindo e maravilhoso, mas vivenciar o dia a dia é depressivo.
      Entretanto devo salientar que penso que fazes uma confusão, misturando sobrevivência com ciência. Neste caso o problema é social e político. Também passa a ser um problema pessoal, com dizia um filósofo "eu sou eu e minhas circunstâncias."
      Creio que o Brasil vive um momento de pobreza espiritual sem precedentes. Esclareço que não me refiro apenas à política, mas problemas de valores individuais. Se nós fossemos diferentes, com certeza o mundo à nossa volta seria diferente.
      O maior problema está na educação inicial que prepara os futuros universitários e docentes. Quando chegam no nível superior estão completamente feitos zumbis.
      Passaram em minhas turmas muitos alunos nesses 10 anos. 99.9% eram pessoas atrás de um pedaço de papel, que se tornou importante burocraticamente para uma melhor situação financeira, ou seja, um pedaço de papel que virou negócio. Nenhuma emoção! Como comentado se poderia prever o futuro de cada um. Linha de montagem de gente!
      Faz 7 anos que me afastei e parece que a situação piorou!
      Posso parecer arrogante, mas tenho a dizer que a mediocridade infestou as universidades, corroendo de forma inexorável aquilo que ainda resistia.

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    4. Joao

      Excelente o seu comentário! Tem interesse em escrever uma contribuição para este blog? Podemos conversar por e-mail, em adonai@ufpr.br.

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  5. Olá Professor Adonai e caro Denis

    Me identifiquei muito também com seu depoimento

    Na universidade onde me graduei só via este tipo de marasmo, acrescido de um disputa insana por notas realizada por alunos "bitolados", cujo único objetivo era de tirar notas altas e inflarem seu respectivos egos.

    Formado em licenciatura em Matemática, lecionei por dois anos, mas as condições de trabalho e remuneração me fizeram desistir desta carreira.

    Trabalho atualmente em um banco onde consigo meu sustento e condições financeiras melhores. E estou terminando meu mestrado em Matemática, na esperança de futuramente ser um pesquisador. Mas fico imaginando se tivesse graduado-me em qualquer engenharia, senão estaria com perspectivas melhores em termos de realização pessoal.

    Sucesso e continue na luta brother.

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  6. Se quer $, o melhor e' tirar um curso de engenharia ou de gestao. Se tiver muita dificuldade em matematica, entao o melhor e' direito, talvez.

    Se quer ser fisico teorico tem que ir para uma universidade de topo. Parana? Que e' isso!?

    Senao quer ficar recebendo bolsa e quer seguranca material sem esforco, o melhor e' ir trabalhar e comprar um "curso de engenharia" numa privada, ir lendo uns livros de divulgacao cientifica e assistindo uns filmes de ficcao cientifica e mandar umas postas nuns blogs online.

    Eu acho que o dpt de fisica foi importante sim. Os alunos ficam logo vendo que aquilo noa e para eles e vao saindo para comprar cursos na privada e depois... depois
    e' politica de terra queimada!

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    1. Acrescento ainda que parece que o aluno tomou uma decisao informada e acertada (para o caso dele). Bem jogado!

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  7. Sou formado em física (licenciatura e bacharelado) pela UFSCar e restringirei meus comentários a essa etapa específica de minha vida. Começarei pelo óbvio: é fácil entrar num curso de física em uma universidade pública pois a concorrência é baixa e o candidato não precisa estar tão bem embasado. Isso não é demerito, mas sim uma constatação. Este foi meu caso nos idos de 1986.
    Ao iniciar a graduação me deparo com docentes completamente despreparados para a sala de aula, ou seja, novamente me deparo com aquele ensino mecânico e sem conexão com a real ciência. Pensei que poderia melhorar ao longo do curso, mas ledo engano. Na verdade, deparei-me somente com dois docentes (ao longo de todo o curso) os quais podem ser enquadrados como reais professores. Isso é muito pouco! Alias, tal fato era um retrato do estágio que se encontrava as universidades naquela época. Hoje, certamente piorou, lamentavelmente.
    Ficar aprisionado no tempo e espaço daquele departamento de física sempre me aflingia, mesmo porque a realidade do mundo exterior diferia em muito daquilo que eu encontrava no dia-a-dia (comecei a lecionar física em uma escola pública de São Carlos). Mas o que fazer com minha paixão pela física e com a necessidade intelectual de me tornar um pesquisador? Hoje eu posso dizer com toda a certeza que o "fazer física" (no caso teórica) dissociado da academia é possível e completamente viável, mas isso é válido para situações específicas e não pode ser estendido para todos. Geralmente o caminho é duro e inviável.
    Entretanto, enfrentar a realidade de uma sala de aula nos dias hoje é um trabalho hercúleo e insano no geral. Do ponto de vista financeiro é lamentável (temos sim que pagar as nossas contas) e do ponto de vista de realização pessoal é utópico achar que iremos contribuir para mudar o quadro lamentável que se encontram os nossos jovens. Há luz no fim do túnel, quero crer que sim, mas por enquanto sou míope (rs).
    Enfim, diferentes trajetórias dentro de um mesmo context. Vamos em frente.

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  8. Denis, boa noite!

    Gostaria de dizer que gostei muito de seu depoimento no blog do Prof. Adonai, sobre sua experiência no curso de Física. Concordo com tudo que você escreveu, especialmente porque vivo este drama e também busco a qualidade de vida que você descreveu. Uma pequena diferença entre nossas histórias é que me dei conta disso mais tarde, quando já estava na pós-graduação.
    Atualmente estou terminando a pós para nunca mais voltar a este meio.

    Parabéns por ter mudado seu trajeto na vida profissional, poucos tem esta coragem!

    Abraços.

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  9. Adonai,
    Estou no ensino médio e quero ser físico. O senhor conhece algum livro para iniciar os estudos em física ?

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    1. Anônimo

      Você deseja texto técnico ou de divulgação científica, para fins de motivação? Consegue ler textos em inglês ou prefere em português? Respostas a essas questões facilitam para que eu possa dar uma resposta que o ajude.

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  10. Consigo ler em inglês, quero livros ou textos técnicos. Os livros didáticos que tenho são péssimos.

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    1. Anônimo

      Em português, recomendo os quatro volumes de Curso de Física Básica, de Moyses Nussenzveig.

      https://www.livrariadafisica.com.br/detalhe_produto.aspx?id=23562

      Em inglês recomendo The Feynman Lectures on Physics, de Richard Feynman.

      http://www.feynmanlectures.caltech.edu/

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    2. Existe tradução da clássica obra do Prof. Feynman para o nosso idioma:

      http://www.grupoa.com.br/livros/fisica/licoes-de-fisica-de-feynman/9788577802593

      P.S: Com o dólar a esse valor, na hipótese de o amigo anônimo querer adquirir o livro físico (mais apropriado para estudo, na minha opinião), é melhor optar pela versão portuguesa (muito boa tradução).

      Chico

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    3. Obrigados. Adonai, e quanto ao cálculo seria interessante iniciar os estudos seguindo o percurso histórico ?

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    4. Muito bem lembrado, Chico. Grato pela dica.

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    5. Anônimo

      Se seu objetivo é aprender cálculo, não creio que seja adequado estudar o tema seguindo alguma linha histórica. O conceito de função, como hoje se compreende, surgiu mais de um século depois dos primórdios do cálculo. E hoje não se desenvolve cálculo sem a noção de função. Uma boa maneira para estudar cálculo é conhecer diferentes obras e diferentes abordagens, incluindo análise não standard. Além disso, é preciso lembrar do objetivo do cálculo: resolução de equações diferenciais. Isso inclui, naturalmente, métodos numéricos. E não podemos esquecer de outro ingrediente fundamental: troca de ideias com profissionais experientes.

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  11. Pretendo cursar Fisica, e fazer pós em astronomia. Estou com muita duvida se esse é um bom caminho a seguir, até porque nao me considero uma pessoa muito intelectual e creio que terei dificuldades em estudar calculo,será que é uma má ideia seguir com meu sonho de ser astrônoma?

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    1. Anônima

      Se seu desejo de se tornar astrônoma for de fato um sonho, algo irresistível em seu âmago, então não vejo escolha. Faça um bom curso de física! Dificuldade em cálculo é algo universal. Matemática é uma atividade altamente não trivial, difícil para qualquer pessoa. Além disso, os sonhos são sempre difíceis de serem realizados. Se fossem fáceis, não seriam sonhos. Quaisquer dúvidas sobre cálculo, pode contar com a minha ajuda.

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  12. Olá professor adonai, sou Marcos, estarei cursando o vestibular UFPR para bacharelado em física, mas meu objetivo, como o de muitos cursantes de fisica, eh me tornar um astrônomo.
    Confesso q fiquei um pouco desanimado com o relato, e também com os comentarios parecidos. Ainda sim, acho q vou prestar fisica msm, nem q seja para quebrar a cara...
    Meu padastro queria tanto q eu cursasse um curso técnico ou uma faculdade da área da industria, dizendo que eu iria ganhar bem e tals, mas eu gosto msm de eh de astrônomia. Já passou pela minha cabeça fazer alguma engenharia, mas hj tenho até desprezo pela própria palavra, pois agora sei q se trata, geralmente, da área industrial, ficar inventando máquinas, usar a criatividade (ñ eh meu forte).
    Sei o q esperar tanto do curso de física, quanto o de astrônomia, soh não imaginava q poderia ser extremamente tediante e rotineiro. Tenho bastante facilidade em cálculo, sei q a profissão q eu qro exige paciência e pesquisa cansativa. Já ganhei algumas medalhas da OBMEP e OBA, então acho q iria bem na prova específica, mas tenho medo da 1a fase e o primeiro dia da 2a fase.
    Enfim, terminando, vc acha q eu realmente deveria cursar física ou outro curso? Ql o nível de dificuldade do vestibular (especialmente com exceção da específica)? No paraná eu consigo achar um pós-graduação? E, por último, poxa, o salário eh tão ruim assim de um licenciado ou bacharel?
    Desde já agradeço, e parabéns pelo blog, mostra um conteúdo muito informativo e crítico.

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    1. Marcos

      O mais importante pré-requisito para cursar uma graduação é realmente gostar da área escolhida. Quem pensa em termos de salários, não tem a mais remota ideia sobre o mundo em que vive. Aquele que gosta do que faz, sempre tem mais chances de sucesso do que aquele que não gosta. Mas outras condições são necessárias para a realização de uma boa graduação, no caso específico de física: habilidade com matemática, boa intuição física e muita força de vontade. Não é um curso fácil.

      No caso do curso de física da UFPR, lá você encontrará professores muito bons e outros com certas deficiências profissionais. Se seu interesse é por astronomia, recomendo que converse com o professor Dietmar Foryta. Ele pode sugerir os primeiros passos, imagino eu.

      Com relação ao vestibular, esta é a parte fácil. O mais difícil é concluir o curso. E, sim, na própria UFPR há programa de pós-graduação. Mas não recomendo que faça Doutorado no Paraná. Mestrado em Física na UFPR pode ser um bom trampolim para a sua carreira. Mas para o Doutorado sugiro instituições de São Paulo ou do exterior.

      Com relação a salário, depende do caminho que você seguir. Se seu destino for o de professor de ensino médio em escola pública, as perspectivas são realmente ruins. Mas se seu destino for física aplicada, engenharia física, mercado financeiro (sim, alguns físicos trabalham com aplicações no mundo das finanças) ou pesquisa, pode ter uma vida digna.

      Mas permita-me uma última sugestão: escreva melhor. Há mais neste mundo do que apenas física.

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  13. Olá, eu me chamo K. , estou nas ultimas matérias do curso de física bacharelado, não posso terminar logo porque não aguentaria, por dois motivos: eu trabalho praticamente desde o início do curso pois passei num concurso e porque ao longo desses anos passei sofrendo(como o Dennis e muitos outros que comentaram aqui) com a apatia e a sem "gracisse" do curso pois adquiri um transtorno de impulso e ansiedade similar ao também conhecido como Tricotilomania. É, eu quebro meu cabelo, simplesmente destruo ele toda vez que tenho que estudar. Atualmente tenho medo só de pensar nos compromissos que tenho pendentes, pois é suficiente para começar a danificar o cabelo e entrar em transe. Bom eu poderia acrescentar, um terceiro motivo ao acumulo de reclamações aqui, não vou culpar professores especificamente, porque alguns realmente foram excelentes e salvaram o semestre pela sua didática, porém grande parte da universidade como já foi dito não só te desmotiva, ela te faz ACREDITAR que voce não é capaz, voce pode ser muito bom e bem desenvolvido em vários pontos, ou talvez voce não entendeu o ponto da maneira como foi passada, mas o problema sempre é o aluno, nunca esta nas castas superiores, nunca está num método de ensino ruim, nunca está na falta de emoção do departamento como já foi dito. E terá pessoas que falarão: "Ah! Mas se ta fazendo física é pra se lascar mesmo, tem que estudar!! Nenhum professor ou funcionário da universidade publica tem obrigação de lhe paparicar"
    Olha me desculpem, mas mesmo na minha condição eu sei que tem que estudar mesmo, mas se o professor/funcionário, se o ser humano por detrás desse cargo não trata bem o próximo e não te motiva, no caso voce; o aluno, a razão de existir a universidade, o que é que ele ta fazendo lá? Acho melhor passar o cargo pra quem tem prazer no seu emprego. As faculdades estão mostrando que estão ruindo mesmo. Esses dias estava no laboratório e chegou um senhor para limpar, deu um mega sorriso, pediu licença, perguntou como estavamos, fez graça, pediu pra retirar o lixo, falou pra estudarmos direitinho e saiu.... eu simplesmente fiquei admirada, refletindo no quanto aquela pessoa estava de bem com a vida e seu trabalho, dai fico pensando que as pessoas mal humoradas e desmotivadoras na universidade estão ali trabalhando contra a vontade ou fizeram o curso errado mesmo. E é com essa realidade que as pessoas mudam de curso ou ficam na física pra formar.

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    1. K.

      Esta é uma recomendação que tenho feito há algum tempo na universidade: acompanhamento psicológico profissional e sistemático de alunos, professores e técnicos. Mas, enquanto isso não acontece, o melhor que posso sugerir é que você procure o apoio de pessoas próximas e de confiança. São poucas as pessoas com transtornos emocionais que conseguem sobreviver na universidade, lamentavelmente. Na verdade, acredito que são poucas as pessoas que conseguem sobreviver na universidade sem desenvolver qualquer tipo de transtorno. Por isso insisto: procure o apoio de alguém próximo e que seja capaz de ouvir, algo igualmente raro hoje em dia. Paralelamente, você também pode e deve usar a sua inteligência para aprender a lidar consigo mesma. As pessoas grosseiras que você encontra pelo caminho são indivíduos transtornados, que não conseguem lidar com elas mesmas. Ou seja, cada pessoa tem a sua maneira de externar problemas emocionais. É neste momento que o intelecto deve agir.

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  14. Eu agradeço o conselho professor e realmente ja estou buscando ajuda psicologica, talvez apos ler os relatos eu me agitei e quis externar o que vem acontecendo, é porque realmente é algo que vem me abalando ainda mais agora que a formatura está chegando e não vejo perspectivas a não ser uma doença adquirida. Espero que o voce continue as pesquisas nessa área, pode ajudar muitos.

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  15. Bom, li todos os comentários e concordo em partes com a maioria. Estudei Física na ufpr por 1 ano e parei. Voltei a estudar fisica novamente em uma instituição privada e estou terminando. De fato acredito q uma mudança geral em todo o sistema de ensino deveria acontecer. Acho q a maioria se torna professor ali exatamente como "sem querer". Vai dando continuidade nos estudos, surge um concurso e qdo vê ja esta lecionando e aqla vontade de ciência ficou perdida em alguma parida de pebolim...

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  16. Primeiramente, ótimo depoimento do Dennis. Quando o li, me identifiquei com a situação da minha época em que eu era estudante do departamento de Física da UFPB, e realmente, os cursos de Física estão podres por dentro. Fiz tudo como manda o figurino, estudei bacharelado, fiz mestrado, doutorado, e pude constatar que os bastidores de um departamento de Física é realmente como o pessoal descreveu nos comentários: tediante e desestimulador. Hoje sou professor do curso de Licenciatura em Física em uma universidade aqui do interior da Paraíba e desde cedo senti a necessidade de me desgarrar destes departamentos, para não depender de bolsas a vida toda. Eu descobri que a carreira de Física no Brasil está inteiramente confinada no nicho "sala de aula, universidade e bolsa de pesquisa". Não se tem espaço para os físicos brasileiros na iniciativa privada, com exceção de escolas privadas .A realidade de um recém doutor em Física está cada dia mais difícil, pois os "portos seguros" de um doutor estão naufragando. Eu diria que tais portos seguros se concentra em "passar num concurso" (no qual as vagas nas universidades estão hoje dificílimas), ou pular de bolsa em bolsa de pós doutorado. O problema dos concursos é que os departamentos estão formando muitos doutores, e as universidades não têm condições de absorver toda esta demanda. E quanto as bolsas de pós doutorado, primeiramente, para o cara se manter por anos com estas bolsas, ele deve ser um puxa saco profissional dos ditos "professores pesquisadores" e depois, com a recessão atual do Brasil, o número destas bolsas diminuiu cada vez mais.

    Agora, depois que me tornei professor, eu vejo outro problema mais sério ainda nas Universidades e em especial nos cursos de licenciatura, que é a invasão da "verbarrogia pedagógica". Tudo agora é "opressão", tudo agora "constrange o aluno". O nível dos cursos hoje está nivelado por baixo, e assim maus alunos são valorizados, enquanto que os bons alunos sofrem indiferença. Os alunos desde cedo são contaminados por pedagogos doutrinadores ou pelos ditos "pesquisadores em ensino de Física", e como resultado, terminam o curso totalmente analfabetos de conteúdo de Física, mas com um alta soberba e arrogância. Este pessoal que permeia as licenciaturas hoje em dia fala muito em ensino, melhorar o ensino, melhorar a metodologia, que tem que ensinar Física assim e assado, mas totalmente vazios de conhecimentos de Física.

    Marcelo.

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    1. Você considera a possibilidade de seguir carreira fora do Brasil, Marcelo?

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    2. Caro Adonai, há alguns anos atrás eu estava trabalhando sim para seguir seguir carreira fora. Na época do doutorado estava com tudo pronto para ir aos Estados Unidos fazer doutorado sanduíche, mas por razões pessoais não fui. Continuo estudando a Física Teórica que eu tanto gosto, mas hoje tenho um outro objetivo que tentarei explicar mais adiante.

      Tenho filho pequeno que ainda vai ingressar na escola, e para salvá-lo da educação podre das escolas, eu e minha esposa estamos preparando um meio de ensiná-lo em casa.

      Estou extremamente assustado com os rumos que a educação de nossos jovens vem tomando. As escolas não só não estão ensinando nada, como também estão emburrecendo seus alunos e os tornando animalizados. No campus que trabalho, por exemplo, recebemos alunos que não sabem ler direito, escrever ou fazer as quatro operações, e tais alunos estão sendo aprovados, ganhando currículo e ingressando nos mestrados de ensino.

      Por isso que hoje tenho uma missão, que é enfrentar o problema de frente e tentar salvar os poucos alunos que estão conscientes do problema da educação nas escolas e universidades brasileiras.

      Marcelo.

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    3. Marcelo

      Se houver algo que eu possa fazer para colaborar, já sabe meu e-mail: adonai@ufpr.br. Sempre gostei de missionários.

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  17. ...", apenas trabalhando em uma pesquisa que jamais será relevante para a vida das pessoas no mundo"...

    Sinto isso quando leio a maioria das teses defendidas nos mestrados e doutorados em Química da UFPR.

    Creio que as pesquisas deveriam ter como foco, trazer desenvolvimento e tecnologia aplicável a sociedade ... nao simplesmente um titulo para a carreira do profissional.

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  18. Eu conheço os dois lado da história também. Já fui aluno e professor de física na universidade federal. Acredito que o sistema todo colabora para a desmotivação. Os próprios alunos desmotivam o professor. Eu já aviso aos que acham que vão conseguir ser como professor Keating do filme "Sociedade dos Poetas Mortos", que saia da sistemática massante e conseguia inspirar os alunos, vocês se iludindo pois não vãi conseguir conquistar os alunos pois eles mesmos acreditam no sistema de ensino que estão e irão defendê-lo. Quando você começar a "viajar" inspirado no que está ensinando acontecerá basicamente três coisas: uma parte irá perguntar se isso cairá na prova e lhe farão pressão para seguir a ementa, outra parte ficará sem entender a sua explicação e possivelmente irão fazer baixo assinado contra você e uma parte ínfima, uns 3 alunos, gostarão do que disse. Por isso, fazer a nossa parte, não resolve. Isso acontece tanto no ensino superior quanto no ensino médio. Por isso, entre outras coisas como, conciliar vida social e trabalho, eu saí do magistério. Agora estudo para ser mais um burocrata da sociedade.

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    1. Neri

      Depoimento impressionante o seu. No meu caso, não desisti de lecionar. Mas entendo muito bem a sua posição.

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  19. Olá boa tarde,
    Sou formado em física bacharelado. Meu curso foi angustiante também, reprovei em uma matéria durante meu curso é já estava no limite da paciência com esse professor. O cara dava uma lista enorme de exercícios e cobrava aquilo na prova. Tipo houve prova com 12 páginas de cálculo. Enfim, consegui me formar e passei na Petrobras, talvez a única empresa que empregue físicos. Trabalho com coisas relativamente interessantes, mas fica um gostinho de quero mais. Tomei a decisão de sair da física quando assistia as conversas dos alunos de doutorado: sem perspectivas, morando em república por mais de dez anos. Passei em outros concursos pra físicos também ( prefeitura de São Paulo, perito criminal), mesmo com apenas a graduação. Ou seja é possível trabalhar como físico no Brasil, mas não é fácil. Sou uma pessoa de inteligência mediana e compenso isso trabalhando mais que a média. Não aconselho ninguém a trilhar o que eu trilhei, pois tive sorte em ter uma mãe que mesmo trabalhando como doméstica me deu tranquilidade para eu fazer o que era necessário: estudar com dedicação.

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    1. Depoimento fascinante o seu, principalmente no que se refere ao apoio de sua mãe. Mulher extraordinária. Grato pelo comentário.

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  20. Caro Adonai...

    recentemente a comunidade acadêmica de nosso país alarde nos meios de comunicação sobre dos cortes de verbas em pesquisa. Sabemos da importância da continuidade e ampliação das verbas de custeio e como as mesmas são vitais para a sobrevida da pesquisa realizada nesse pobre país. Entretanto, também percebo que a manutenção do status atual em nada colabora para a boa crítica do sistema de financiamento e o real papel da pós-graduação. Precisamos realmente de tantos doutores e mestres? Há demanda para todos eles? Ou queremos somente manter o status surreal da "pesquisa" de certos grupos majoritários localizados em alguns poucos centros de excelência desse pobre país? Realmente estou confuso. O que você acha disso Adonai?

    Marcelo

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    1. Marcelo

      Os governos federal e estaduais demonstram pouca compreensão sobre o papel estratégico de pesquisa de ponta. E as universidades em geral carecem de auto-crítica. Não é por acaso que você fica confuso. Qualquer pessoa minimamente sensata ficaria confusa com esta situação horrorosa.

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